domingo, 18 de março de 2012

UM RAPAZ LATINO AMERICANO

Vou falar um pouco de mim. Estou precisando. Tive uma infancia relativamente feliz, fiz coisas que toda criança faz como brincar de bola, esconde esconde, amarelinha. Meu universo era igual ao de qualquer outra criança da minha idade. Cresci assim, fazendo algumas traquinagens, às vezes até ultrapassando o limite do bom senso, mas sem causar maiores danos a ninguem; só a mim mesmo.
Durante essa fase sentia que não atendia às expectativas das pessoas que amava, por razões diversas que nem eu mesmo sei. Mas sentia que era assim. Via-me comparado a outras pessoas que eram bem sucedidas na escola, mas os valores que me cobravam não eram exatamente aqueles com os quais eu concordava. Escola para mim era só uma meta exigida, mas sentia por vezes que estava além disso, muito à frente. Não era exatamente um ótimo aluno,  não por uma questão de QI, mas por uma questão de valores meus, talvez não achasse a educação recebida alguma coisa que preenchesse o vazio cultural que existia em mim. Talvez quisesse mais ou quisesse diferente.
Na adolescencia fiz também coisas que todo adolescente faz, como se apaixonar, ir à festinhas na casa de amigos, sonhar com o futuro; a paixão brotou em mim nessa fase como algo arrebatador. Comecei a perceber que meu universo era muito maior que aquele em que eu estava inserido. Mas havia a necessidade de atender às expectativas das pessoas que eu amava. Do meu jeito eu amava as pessoas que estavam a meu lado, mas era do meu jeito, um jeito só meu que muitos não conseguiam entender.
E assim, passei para a fase adulta sempre tentando ser do jeito que me diziam que era o certo. Mas confesso que todo esse jeito pre fabricado na cabeça das pessoas me entediava. Me incomodava.
Um dia descobri que precisava voar, minhas asas já estavam ficando enferrujadas. Era hora de dar o grande salto de minha vida e ser eu mesmo. Hora de esquecer as coisas que cresci ouvido serem o correto, o exato, o esperado. Hora de parar de querer atender às expectativas do mundo, um mundo que não era o meu. Nem parecido. Tinha valores só meus, sei lá se eram certos ou politicamente corretos. Eu nunca fui politicamente correto.
Passei a viver um mundo paralelo, cheio de paixão e encantamento, dei asas à minha imaginação, voei longe e voei alto. Ultrapassei todos os limites até então impostos à mim que vinham me sufocando. Vivi um momento de paixão intensa por mim mesmo, fiquei deslumbrado pela pessoa que estava guardada dentro de mim, sentada numa cadeira de escola aprendendo o óbvio. Que me importava o óbvio? Eu queria mesmo era o inusitado, o ousado, o inesperado. Afoguei-me nos livros que realmente me interessavam, na literatura despretensiosa de um mundo mediocre, sem emoção, sem loucura. Eu era um louco apaixonado que precisava colocar para fora uma pessoa escondida e sufocada.
E assim virei poeta, um poeta da vida.Um poeta de um mundo onde a loucura e a sanidade caminhavam lado a lado e neste meu mundo elas podiam se manifestar à vontade. Afinal, esse mundo paralelo eu havia criado para poder ser eu mesmo. E do meu jeito, mais uma vez, consegui ser feliz.
Percebi, como sempre, que essa reclusão me causou uma enorme frustração por não atingir os anseios da família. Senti-me muitas vezes relembrado de forma sutil, de que poderia ser diferente do que sou, assim como fulanos, ciclanos, beltranos, familiares bem sucedidos e famosos. Pessoas importantes que eram importantes por serem do jeito exato que esperam que fossem.Ma eunão era assim. Nunca conseguiria ser assim. Nunca conseguiria viver preso e escravo de convenções, eu precisava viver o meu mundo, que era muito diferente. Nunca iria brilhar neste mundinho certinho, cheio de comadres e compadres, cheio de lorotas, cheio de coisas que para mim nunca tiveram valor.
Se me senti culpado por isso? Não, nem poderia. Eu sou assim, ou será que a vida me fez assim?
Sou apaixonado, sou louco, um louco com momentos de sanidade, que procura usar a loucura apenas como um recurso para ser feliz. Onde moro? Não tenho casa, moro dentro de mim mesmo. Onde estudo? Não estudo, me afogo na literatura que me faz feliz. Se tenho um nome? Sim, deram-me um nome,que por sinal significa "senhor poderoso". Como me chamo?
Muito prazer, eu sou Ricardo Rossi e sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, e vindo do interior de mim mesmo. Mas certamente, tenho parentes importantes.

4 comentários:

  1. Você foi muito feliz nesse texto Diva.
    Parabéns!!

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    1. Ligia, como voce disse, acho que tentei escanear a alma do outro e parece que chegue muito perto.

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  2. Sou parente, mas não sou importante. Participei um pouco da infância dele. Foi muito legal

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    1. Vera, deve ser vc. Velu. Claro, todos somos importantes e vc. certamente deve ter tido grande importancia na infancia dele. Obrigada pelo carinho.

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