Itatinga. Inerior de São Paulo. Cidade onde vivi os melhores momentos da minha velha infância. Que cidade linda! Tinha naquela época cerca de 15.000 habitantes eu imagino. Que viviam felizes e prósperos. Os telefones eram raridade. Havia uma central telefônica onde a telefonista chamada Rosália conhecia a todos pela voz.
Lá era a terra do meu avô paterno Pompeu Ruggieri, o Peo. Peo tinha 1,50 m de pura simpatia e carisma. E olha que a vida não tinha lhe facilitado muito. E nas férias era la, na casa do Peo, que todos iam. Filhos, filhas, genros, noras, netos e netas. Lá passávamos a ferias inteiras.
Peo tinha um armazém na cidade onde vendia de arroz a havaianas (com tiras coloridas para reposição). Era mesmo mais um adorno porque naquele tempo crianças passavam o dia todo descalças. Sapatos só a noite ou para passear.
A casa do Peo era uma mansão, pelo menos eu enxergava assim. Tinha uma varanda e uma entrada lateral com um portão grande que dava acesso ao quintal. Logo ao entrar pela varanda tinha uma sala que hoje chamaríamos de sala de estar. Pequena com um sofá e o telefone na parede. À direita um quarto grande .Esse quarto tinha uma janela que dava para a rua onde as tias ficavam ouvindo serenatas dos namorados. E eu ficava junto chorando que queria ir com o tio Camal. Pois bem, seguindo pela direita havia um corredor com mais mais dois quartos, um deles era o quarto do Peo. À direita do corredor havia uma sala imensa, com sofás, mesa de jantar e um relógio cuco cujo passarinho se tornara já meu grande amigo. Nessa sala, tios e tias se reuniam para jogar cartas e jogar conversa fora e ali amanheciam. Eu ficava ali do lado sentada com alguns poucos brinquedos e ouvia a todo instante alguém cochichando sobre minha humilde pessoa. Queriam que eu dormisse mas eu resistia bravamente. Então la vinha o Dr. Wilson, um medico amigo da família, com sua sabedoria acerca de medicina e crianças e me socava um comprimido de.......pasmem.......GARDENAL!!!!! Dizia que fazia dormir rapidamente. Não queridos, nunca sofri nenhuma convulsão. Era a forma rápida que aqueles adultos tomados por uma aura de pragmatismo e eficacia comprovada se viam livres de uma criança, no caso eu.Imagino que ficavam jogando a noite toda enquanto eu sucumbia sob o efeito do tal anticonvulsivo.
Continuando pela casa mais um corredor com um banheiro à esquerda e uma porta à direita que dava acesso ao armazém do Peo. E ai chegávamos à copa, onde todos sentavam para fazer as refeições. E a esquerda a cozinha onde ficava o fogão a lenha simplesmente maravilhoso.
Não sei como nos dividíamos, pois embora a casa fosse grande os parentes eram muitos. Tio Mario e tia Lili vinham de Pacaembu com Jose Eduardo e Jose Antonio. Meus pais iam de Santo Andre comigo e Cris. Os outros ainda não eram nascidos.As tias também passavam ferias la. Tia Thereza tinha o Marcos e o Silvio, mas acho que o Silvio ainda não tinha nascido. E tia Antonieta tinha o Camal e o Fernando,mas acho que o Fer ainda não tinha nascido também. tio Toninho também morava la. Era uma diversão só. O quintal do Peo era uma delicia.Tinha pê de mexerica, lima, limão, goiaba, tinha galinheiro e seguindo por uma trilha chegávamos à casa da tia Zina.No galinheiro do Peo tinha uma jabuticabeira enorme que era minha fruta preferida. Como eu era a mais velha fazia inveja aos primos pequenos que não conseguiam subir nas arvores.
Todas as manhãs Peo ia ao galinheiro recolher os ovos e eu ia junto. Ele conversavam com as galinhas como se as conhecesse uma a uma.E eu ficava ali admirando a competência linguística do meu avo.
As crianças gostavam muito de brincar no quintal do Peo e eu como a mais velha era por vezes incumbida de ficar cuidando dos pequenos.Não tínhamos muitos brinquedos e assim nossa criatividade funcionava bem. Qualquer tampinha de garrafa nos divertia muito.
Um dia estávamos no quintal eu, com uns 6 anos, e meu primo Jose Antonio, o Batata e minha irmão Cris , esses dois com mais ou menos um ano. Nem andavam ainda. Me deixaram incumbida de cuidar dos dois enquanto as mamães cuidavam da comida e das guloseimas. Comíamos no minimo 6 calóricas refeições diárias. E me recomendavam sem´pre que nunca os deixasse sozinhos.
E la estava eu no quintal do Peo tentando entreter os pequeninos. Não me recordo de ter massinha naquela época então eu mesma preparava uma massinha com terra do galinheiro e água. E os dois se deliciavam. Ficavam conversando naquela linguagem cheia de frases ininteligíveis e alguns grunhidos. Cris era a mais ousada e adorava passar barro no rosto do Batata que ria e aceitava como um carinho. Ja era um cavalheiro desde pequeno. Uma vez no meio da terra apareceu uma formiga no meio da terra daquelas grandes e mordeu o rosto do Batata. O menino danou a chorar e as mães correram acudir. Claro, a bronca era em cima dessa que vos relata a historia.
E estávamos nos no quintal quando o Peo passou em direção do galinheiro. Eu não pude acompanhá_lo como fazia todos os dias pois não podia deixar os pequenos sozinhos.Ai que sina a minha!!!!!! De repente um grito cindo do galinheiro: "Uma cobra"!!!!!
O grito era do Peo. Meu Deus dei um pulo e sem pensar em nada sai em disparada para dentro da casa e passei triscando pela cozinha em direção ao banheiro onde me tranquei morrendo de medo imaginando uma jiboia enrolada no Peo engolindo ele todinho. So sai do banheiro quando ouvi a conversa das pessoas sobre a vitoria do duelo entre Peo e a cobra intrometida.
Dizia o Peo: "Hoje vou jogar no bicho e vai dar cobra na cabeça". Vou ganhar.
Sai de mansinho e voltei para meu posto de trabalho sem ninguém perceber que tinha me afastado e......cade os dois???? Os pestinhas não andavam mas engatinhavam que era uma beleza. E também, de mansinho entraram no deposito do Peo e derrubaram uma porção de coisas que eu tive que arrumar para não ser alvo de um ataque fatal de mães iradas.
Já na cozinha com a situação resolvida e o réptil azarado já habitando outras esferas Peo saiu dizendo que ia fazer o tal jogo de azar ou de sorte.
À noite Peo entrou pela porta espumando de raiva dizendo:
-Cobra maldita, cobra dos infernos.
Diante do olhar patético de todos ele se explicou. Voltava da rua onde fora conferir o resultado do jogo no qual havia depositado todas as suas expectativas. E, pasmem, deu galo na cabeça. Pode isso!!! Eta cobra trambiqueira e traiçoeira. So estava ali no galinheiro para confundir. Esbravejou muito, lamentou o fato de ter dado apenas uma paulada na cobra pois agora sentia vontade de pica_la todinha em mil pedacinhos.
Todos riram muito da historia da cobra no galinheiro. E depois de bastante bate papo como era de costume, todos foram se deitar com a sensação de mais um dia de dever cumprido. Eu sempre dormia com a cabeça cheia de palnos para o dia seguinte que seria ser baba pela manhã e sair com meus primos e primas para masis uma folia.
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