As férias de Itatinga eram cheias de surpresa e de muitas aventuras. Tio Camal era o marido de tiaq Antonieta, uma das gemeas e nas ferias sempre estavam la na cidade maravilhosa porque ambos eram professores.Tio Camal tinha uma vespa. Vespa era a moto envenenada da época. Nem sei se nos dias de hoje ainda existe uma vespa. Mas como aquela certamente não. A do meu tio era azul e branca. Linda. Ele também era lindo. Tocava violão e gostava de cantar. Antes de se casarem ele fazia serenatas ao luar para a namorada e eu ficava de dentro do quarto resmungando que queria ir com ele
Pelo menos uma vez por semana tio Camal subia na Vespa e ia para Avaré visitar os pais, Dona Marcilia e Sr. Said. Eles moravam em uma casa e na frente tinham um bazar.E sempre que ia me chamava para ir junto. E lá ia eu subir na garupa da vespa; E lá íamos nos por uma estrada estreita e sem asfalto que em alguns trechos era uma areão que fazia a vespa parecer uma folha ao vento. Se eu sentia medo? Jamais. Já tinha eu passado pela experiencia da roda gigante praieira e a vespa sambando era muito divertido.
Eu gostava de ir descalça, até porque naquele tempo criança andar descalça era comum. Ao longo do caminho passávamos por vários sítios, um mais lindo que o outro. Em vários trechos as frutas brotavam na beira da estrada. Tio Camal parava e colhíamos limões para levar para Dona Marcilia.
Depois de mais ou menos 1 hora de aventura estrada afora lá estávamos nos em Avaré. Mal entrava na casa e já pedia para ir ao banheiro. E Dona Marcilia já sabia o que eu queria: enchia a banheira e me deixar brincar ali dentro. E eu me acabava naquela banheira maravilhosa que me fazia sentir uma verdadeira Sophia Loren no filme Bela e Canalha. Neif sempre ficava comigo quando estava la. Ela era irmã do tio Camal. Tinha Neif, Jamile e Nassib. Nassib era um galã.
E depois de um banho digno de rainha me vestia e íamos para a mesa tomar cafe. Tomar cafe era apenas uma maneira de dizer porque aquela mesa era uma especie de banquete vespertino. Cafe, leite, pães, manteiga, toddy e uma coalhada seca que fazia qualquer sheik arabe trocar seu reinado por um pote daquela maravilha. Eu não consigo explicar o que sentia mas só de lembrar a boca enche de água e o gosto da coalhada me vem de pronto.
Ali sentávamos,comíamos como se o mundo fosse acabar dentro de instantes.
Depois da comilança e de alguns papos lá íamos nos pegar o caminho de volta para Itatinga. Dona Marcilia sempre pegava um vidro com bolinhas de coalhada seca nadando em azeite de perfume indescritível para que levássemos para as tias.Eu sempre carregava o vidro como se fosse um tesouro e torcia para que ninguém comesse e sobrasse tudo pra mim. Novamente parávamos na estrada para pegar limões dessa vez para levar para Itatinga. Mas isso era mais um mimo que meu tio me fazia pois sabia que eu adorava pegar os tais limões. Em Itatinga tinha uns dois ou três pês de limão sempre carregados.
E no fim da tarde lá estávamos nos de volta à casa do Peo sempre com uma ou outra novidade trazida pelo tio.E eu ficava torcendo para que o próximo dia de ir a Avare chegasse logo e eu pudesse subir na garupa de Vespa e partir para mais uma linda e louca aventura.
Esse foi meu tio Camal Assad Mamud, um professor motoqueiro. Tio Camal me ensinou que a vida é uma linda aventura e está sempre começando.
Esteja onde estiver receba meu carinho e saiba que meu coração sempre bate forte quando lembro de você.