O menino era curioso. Traquina. Ousado. Sempre estava metido em alguma confusão, mas nada de tão sério.
Começou a trabalhar muito cedo, não sei se por vontade, por necessidade ou pelos dois motivos. Talvez por ser tão curioso e ousado e por trazer no sangue um espírito empreendedor, resolveu lançar mão de seu potencial e colocá-lo a seu dispor já na adolescência.
Começou vendendo sorvetes que a mãe fabricava em casa. Saía pela manhã com uma caixinha cheia de sorvetes e andava de um lado para o outro anunciando seu produto. Vez em quando parava e pensava pegar um para saborear. Mas tinha que dar conta à mãe quando chegasse e então repensava e continuava seu trabalho. Como trabalhava sempre pelos arredores de sua casa a mãe sempre estava a espiá-lo pela fresta da janela. Dessa forma, vigiado constantemente, nunca podia sair da linha.
Um dia um menino pediu-lhe um sorvete. Ele vendeu, recebeu, entregou. Quando viu o freguês mirim tirar o sorvete da embalagem seus olhos se arregalaram e não se conteve:
-Me dá um pedaço, disse ao menino.
O menino lhe deu e ele tomou aquele pedaço como um premio recebido pelo seu desempenho como vendedor. Acho que depois disso percebeu que era hora de mudar de profissão e partiu para outra atividade.
Resolveu ser engraxate. Afinal de contas, quem nos faz caminhar pelo mundo afora são os pés, que devem estar sempre bem acomodados dentro de sapatos. Estes por sua vez devem estar limpos e bonitos para acomodar os responsáveis pelas nossas andanças nesse mundo. Na sua nova atividade precisava de alguns apetrechos mais elaborados. Preparou tudo com muito cuidado: a caixa, a escova, a flanela para dar brilho e a pomada que era o produto principal para realçar a cor dos sapatos e renová-lo.
Saiu todo contente, iniciando assim sua nova empreitada no comercio. Mas, como sempre fora muito rápido, não calculou muito bem as medidas do sapato que engraxava e a pomada manchou as meias do homem, que com razão, ficou furioso, colocando assim um ponto final na sua carreira de engraxate.
Tempos depois, já mais maduro resolveu ser Office Boy. Vinha ao longo do tempo evoluindo a seu modo. Já conseguiu nesse tempo uma colocação em um escritório. Seu único ponto de desequilíbrio era a comida. A mãe lhe preparava uma comida que levava dentro de uma marmita. Ele e a marmita sempre viviam em conflito. Uma vez a tal se abriu dentro do ônibus e começou a vazar a comida. Todos olhavam para ele que como sempre fingia que nada estava acontecendo.
Todas as marmitas eram colocadas em banho maria para que pudessem ser aquecidas. Todas juntas. Todos deviam almoçar no mesmo horário. Mas um dia seu chefe pediu a ele que fosse ao Banco e então precisou almoçar antes que todos. Foi até o refeitório, pegou sua marmita e começou a comer. Estranhou a comida, mas dela se deliciou até o momento em que teve a certeza de que não era sua. Colocou a marmita no lugar e tentou achar a sua, que estava exatamente no lugar onde havia colocado. Tinha se enganado, mas já havia cometido o delito. À tarde, ao voltar do banco, seus colegas comentavam que um dos funcionários estava querendo matar quem lhe roubara a comida. Como sempre, fingiu não saber de nada.
O tempo passou e o menino cresceu. Mas o espírito empreendedor continuou presente dentro dele.
Na vida pessoal, saiu-se muito bem. Casou-se, teve filhos, vive bem e feliz.
Na vida profissional também se saiu bem. Como não podia deixar de ser, tornou-se um comerciante. Hoje tem um comércio de alimentação próspero e pode saborear seus produtos sem que a mãe o espie pela fresta da janela.
Na vida social, resolveu dedicar-se a musica. Toca e canta para alegrar a si e aos seus.
É uma figura muito esperada nas reuniões sociais, imagino. Dono de uma alegria que contagia a todos que estão a seu lado, traz muita energia às nossas reuniões. Que bom. Fico feliz em tê-lo conhecido, gosto de pessoas felizes, com boas energias com quem posso trocar e aprender. Dia desses numa dessas reuniões ele falou sobre a sua história, as pequenas traquinagens, sua trajetória profissional e eu, claro, já coloquei no papel. Embora tenha ouvido superficialmente achei bastante divertido seu relato, principalmente a história do sorvete. Acho que me lembrei de meu irmão, que também começou sua carreira aos oito anos, vendendo sorvetes. A diferença é que quem os fabricava era a avó, pois a mãe nesse tempo já havia partido. Com o lucro comprava batatas. Depois também andou engraxando alguns sapatos para ganhar alguns trocados. Com o passar do tempo foi se aprimorando e vendeu seguro de vida, remédios e hoje tem quatro lojas de Café muito bem estruturadas e um patrimônio razoável.
Talvez por essas razões a história que ouvi tenha me feito lembrar o passado e em especial de meu querido irmão. Ambos têm trajetórias parecidas.
Claro, só nos falou sobre o lado divertido das histórias, mas com certeza por trás de toda essa parte lúdica existe a história de um menino lutador que se transformou em um homem de sucesso. Merecidamente. E a quem eu não poderia deixar de render homenagens.
O menino do sorvete chama-se José Carlos Furini e é para ele que dedico esse pequeno relato de sua grandiosa história.
12/04/2011 07h24min