quarta-feira, 20 de abril de 2011

PARALELAS

Itapetininga. É o nome da cidade onde passei poucos, mas os melhores anos de minha juventude. Ia para lá todos os finais de semana, pois nessa época minha mãe estudava lá. E assim, com a desculpa de `vê-la passei meus fins de semana durante 4 ou cinco anos, tempo que durou a Faculdade.
Chegava sexta-feira a noite e corria telefonar para minha amiga. Uma hora depois já nos encontrávamos e aí nosso fim de semana começava maravilhoso.
Ficávamos andando pela Praça, íamos ao Patacão, um barzinho onde todos se reuniam e depois esticávamos até um outro barzinho onde um amigo chamado João tocava violão e cantava lindamente. Amanhecíamos andando, cantando, conversando, e depois íamos para casa descansar um pouco para recomeçar nossas andanças no sábado à tarde.
Minha amiga era uma jovem muito bonita, de cabelos castanhos, longos e ondulados. Andava sempre muito bem vestida e maquiada. Os olhos sempre contornados de preto e os cílios sempre alongados e curvados. Eu sempre me projetei nela e procurava imitá-la pintando meus olhos como os dela. Mas nunca tive muita habilidade para isso. Uma vez ela me disse que queria se casar na noite de Natal durante a Missa do Galo, famosa e muito frequentada naquela época. Por algum tempo fiquei imaginando como seria esse casamento e como ficaria linda a noiva.
Afinal, a noiva tinha nome de Deusa e era realmente uma Deusa.
Os anos passaram e o destino se encarregou de traçar linhas paralelas para nossas vidas. Passei a ir raramente para lá e com a morte de meus tios passei a não ir mais. Perdemos contato, telefone, não tínhamos recursos de comunicação como hoje temos, e consequentemente o afastamento tornou-se inevitável. Há muito tempo atrás fui até lá e nos encontramos rapidamente. Não deu tempo de revivermos intensamente aquela época tão boa em nossas vidas. Apenas falamos o essencial sobre nós e ficamos de continuar a falar e marcar um novo encontro. Mas, novamente retomam0s a rotina e continuamos a caminhar sobre as paralelas.
Mas acho que em nossos pensamentos sempre estão presentes as lembranças desse tempo que tanto nos marcou. Eu sempre me lembro de Ceres e de todas as amigas que faziam parte daquele grupo da década de 70. Os carnavais, os bailes, as cantorias no barzinho, as conversas no banco da Praça, a recepção calorosa de D.Aurora, sua mãe, as boas conversas do Sr.Noronha, seu pai, seu irmão Newton e o café da D.Aurora com bolo de fubá. Quando estávamos em sua casa entre conversas e risos, sempre havia um café com bolo de fubá, feito carinhosamente pela anfitriã.
Ceres é a Deusa da Agricultura e no mes de Abril era homenageada pelos plebeus da Antiga Grécia. Como estamos no mês Abril resolvi fazer esta pequena homenagem à minha amiga Ceres, que certamente é uma Deusa. Assim eu a vi e assim eu a guardo na memória até hoje.

Minha querida amiga Ceres Cavalcanti de Noronha, que mora até hoje na cidade que me proporcionou bons momentos, boas risadas e muita emoção.

20/04/2011           10:48

terça-feira, 19 de abril de 2011

O MENINO DO SORVETE

O menino era curioso. Traquina. Ousado. Sempre estava metido em alguma confusão, mas nada de tão sério.
Começou a trabalhar muito cedo, não sei se por vontade, por necessidade ou pelos dois motivos. Talvez por ser tão curioso e ousado e por trazer no sangue um espírito empreendedor, resolveu lançar mão de seu potencial e colocá-lo a seu dispor já na adolescência.
Começou vendendo sorvetes que a mãe fabricava em casa. Saía pela manhã com uma caixinha cheia de sorvetes e andava de um lado para o outro anunciando seu produto. Vez em quando parava e pensava pegar um para saborear. Mas tinha que dar conta à mãe quando chegasse e então repensava e continuava seu trabalho. Como trabalhava sempre pelos arredores de sua casa a mãe sempre estava a espiá-lo pela fresta da janela. Dessa forma, vigiado constantemente, nunca podia sair da linha.
 Um dia um menino pediu-lhe um sorvete. Ele vendeu, recebeu, entregou. Quando viu o freguês mirim tirar o sorvete da embalagem seus olhos se arregalaram e não se conteve:
-Me dá um pedaço, disse ao menino.
O menino lhe deu e ele tomou aquele pedaço como um premio recebido pelo seu desempenho como vendedor. Acho que depois disso percebeu que era hora de mudar de profissão e partiu para outra atividade.
 Resolveu ser engraxate. Afinal de contas, quem nos faz caminhar pelo mundo afora são os pés, que devem estar sempre bem acomodados dentro de sapatos. Estes por sua vez devem estar limpos e bonitos para acomodar os responsáveis pelas nossas andanças nesse mundo. Na sua nova atividade precisava de alguns apetrechos mais elaborados. Preparou tudo com muito cuidado: a caixa, a escova, a flanela para dar brilho e a pomada que era o produto principal para realçar a cor dos sapatos e renová-lo.
Saiu todo contente, iniciando assim sua nova empreitada no comercio. Mas, como sempre fora muito rápido, não calculou muito bem as medidas do sapato que engraxava e a pomada manchou as meias do homem, que com razão, ficou furioso, colocando assim um ponto final na sua carreira de engraxate.
Tempos depois, já mais maduro resolveu ser Office Boy. Vinha ao longo do tempo evoluindo a seu modo. Já conseguiu nesse tempo uma colocação em um escritório. Seu único ponto de desequilíbrio era a comida. A mãe lhe preparava uma comida que levava dentro de uma marmita. Ele e a marmita sempre viviam em conflito. Uma vez a tal se abriu dentro do ônibus e começou a vazar a comida. Todos olhavam para ele que como sempre fingia que nada estava acontecendo.
Todas as marmitas eram colocadas em banho maria para que pudessem ser aquecidas. Todas juntas. Todos deviam almoçar no mesmo horário. Mas um dia seu chefe pediu a ele que fosse ao Banco e então precisou almoçar antes que todos. Foi até o refeitório, pegou sua marmita e começou a comer. Estranhou a comida, mas dela se deliciou até o momento em que teve a certeza de que não era sua.  Colocou a marmita no lugar e tentou achar a sua, que estava exatamente no lugar onde havia colocado. Tinha se enganado, mas já havia cometido o delito. À tarde, ao voltar do banco, seus colegas comentavam que um dos funcionários estava querendo matar quem lhe roubara a comida. Como sempre, fingiu não saber de nada.
O tempo passou e o menino cresceu. Mas o espírito empreendedor continuou presente dentro dele.
Na vida pessoal, saiu-se muito bem. Casou-se, teve filhos, vive bem e feliz.
Na vida profissional também se saiu bem. Como não podia deixar de ser, tornou-se um comerciante.  Hoje tem um comércio de alimentação próspero e pode saborear seus produtos sem que a mãe o espie pela fresta da janela.
Na vida social, resolveu dedicar-se a musica. Toca e canta para alegrar a si e aos seus.
É uma figura muito esperada nas reuniões sociais, imagino. Dono de uma alegria que contagia a todos que estão a seu lado, traz muita energia às nossas reuniões. Que bom. Fico feliz em tê-lo conhecido, gosto de pessoas felizes, com boas energias com quem posso trocar e aprender. Dia desses numa dessas reuniões ele falou sobre a sua história, as pequenas traquinagens, sua trajetória profissional e eu, claro, já coloquei no papel.  Embora tenha ouvido superficialmente achei bastante divertido seu relato, principalmente a história do sorvete.  Acho que me lembrei de meu irmão, que também começou sua carreira aos oito anos, vendendo sorvetes. A diferença é que quem os fabricava era a avó, pois a mãe nesse tempo já havia partido.  Com o lucro comprava batatas. Depois também andou engraxando alguns sapatos para ganhar alguns trocados. Com o passar do tempo foi se aprimorando e vendeu seguro de vida, remédios e hoje tem quatro lojas de Café muito bem estruturadas e um patrimônio razoável.
Talvez por essas razões a história que ouvi tenha me feito lembrar o passado e em especial de meu querido irmão. Ambos têm trajetórias parecidas.
Claro, só nos falou sobre o lado divertido das histórias, mas com certeza por trás de toda essa parte lúdica existe a história de um menino lutador que se transformou em um homem de sucesso. Merecidamente. E a quem eu não poderia deixar de render homenagens.

O menino do sorvete chama-se José Carlos Furini e é para ele que dedico esse pequeno relato de sua grandiosa história.

12/04/2011                                              07h24min



segunda-feira, 18 de abril de 2011

AS DORES DA ALMA

Durante minha infância e adolescencia passava férias no interior em casa de meu avô. Era uma cidade pequena chamada Itatinga. Pequena mas encantadora, e durante esse tempo foi sempre meu paraíso.Lá tinha primos e primas que fizeram parte dessa fase de minha vida e me marcaram. Até hoje quando me lembro desse tempo sinto o coração bater forte.
Assim que chegava pegava o telefone e ligava para meus primos. Naquele tempo existia uma Central Telefônica que recebia a solicitação e encaminhava a ligação para o número desejado. A telefonista se chamava Rosaria e até conhecia minha voz. Eu apenas pedia que ela ligasse para a casa de meu tio Renato e ela já sabia. O número era 123, se não me engano.
E aí, começava a parte boa. Encontros, passeios, conversas, afinal, tínhamos que colocar tudo em dia. Falávamos sobre o que tinha acontecido no período em que havíamos ficado distantes e sobre planos para as férias.
Como a cidade era muito pequena, podíamos sair sozinhas, sem receio nem preocupação dos pais.
Costumávamos ir até a chácara do meu tio Renato, onde nadávamos no pequeno riacho, comíamos fruta do pé, brincávamos de esconde esconde, vivíamos felizes e sem nenhum tipo de preocupação. Depois de um longo e estafante dia tomávamos banho e íamos passear na Praça, rodando em círculos, conversando, e no outro dia começava tudo de novo.
Uma vez cortei pisei em um prego no quintal da casa da Tia Zina e o danado ficou alojado entre meu dedos todo enferrujado. Tio Renato tinha uma farmácia e veio correndo me socorrer.
Encheu a banheira com água morna e colocou meu pé dentro depois de ter arrancado o prego. Eu estava morrendo de medo, era a primeira vez que me machucava assim. Tio Renato era alto, forte, tinha voz forte também, parecia ser tão bravo. Mas tinha as mãos suaves e delicadas, talvez por assim exigir sua profissão. E foi assim com muita delicadeza que ele cuidou do meu pé, enquanto conversava comigo e dizia que ficasse tranquila pois só doeria um pouquinho. Depois pegou uma injeção enorme, daquelas de vidro, e aplicou em meu braço. Foi a primeira vez que tomei uma injeção, pelo menos a primeira da qual tenho lembrança. Mas não me lembro da dor. Meu tio conseguiu me deixar tão tranquila que senti muito pouco. Lembro-me de que ele disse sobre outras dores piores que a do corpo. Acho que se referia às dores da alma.
E assim, entre os olhares assustados de meus primos parados à porta do banheiro e os olhares preocupados dos outros adultos, tio Renato deixou meu pé inteiro. E foi assim que eu aprendi a ser corajosa e enfrentar as dores do corpo.
Minha tia Linda, e as primas Carmem e Cecília moram em Itatinga. Carmem ainda mora na mesma casa onde passei os melhores momentos de minha infância. A farmácia já não existe mais.
Bil, meu primo hoje mora em Baurú. Tornou-se um veterinário bem sucedido. Era o mais velho de nosso grupo e o mais galã. Bonito que só ele.
Júnior tornou-se engenheiro, se não estou enganada. Depois de adultos, ficamos afastados e acabamos por desconhecer o outro.
Edson e Toni também constituíram família, mas não sei dizer onde andam. Mas seis que estão bem.
Tio Renato há muito tempo não está mais entre nós. Dedicou-se enquanto aqui estava à cuidar das dores do corpo.Agora,  em algum lugar desse universo deve ainda estar cuidando de dores...dores de alma.

Esse foi meu tio Renato Fanton, que me ensinou ainda pequena a suportar corajosamente as dores do corpo.

18/04/2011          10:50

sábado, 16 de abril de 2011

UMA CARTA PERDIDA NO TEMPO

Querido neto João Claudio

Como vai você? Espero que esteja tudo bem. Sei que você está trabalhando muito e também estudando. Fico muito feliz e orgulhosa disso. Seu pai me falou que está tudo bem e que no final do ano você deve vir aqui nos visitar.
Aqui está tudo bem, o Dade continua o mesmo. Todas as tardes coloca um copo de água em cima do rádio para ouvirmos a oração. Sentamos um de cada lado da pequena mesa e rezamos juntos. Depois bebemos a água benta. Dade então se levanta põe o seu chapéu e sobe até aquele bar da esquina para beber um pouco de vodka e conversar com os amigos. Depois volta, aí nós jantamos e vamos nos deitar para, no dia seguinte, fazer tudo novamente.
Ivone voltou a estudar e quer ser professora. Maria está bem. Walter está trabalhando e continua apaixonado por futebol.
Todos os domingos nos reunimos aqui em casa, na casa da Maria ou na casa do seu pai. Almoçamos sempre juntos enquanto as crianças ficam brincando. Eu e Maria fazemos a comida, Mauricio e João ficam rindo e conversando e assim o dia passa tão rápido que já chega a noite e vamos cada um para suas casas.
Maria quer que eu e Dade moremos com ela. João acha que nós já trabalhamos muito e está chegando a hora de descansarmos. Mas nós não queremos. Ainda estamos pensando.
Então, quando você vier aqui nos visitar vamos fazer um almoço e reunir todos. Eu vou fazer melinca doce e salgada  para você.
Estamos com muitas saudades. Dade manda um grande abraço.

De sua Baba Dominichia Petrov Todorov

Esta carta foi escrita pela Baba Dominichia há  quase cinquenta anos atrás para seu neto João Claudio que morava no exterior, onde trabalhava e estudava. As palavras não foram exatamente essas. Como Baba falava enquanto escrevia eu, que estava a seu lado,pude me lembrar do seu conteúdo ainda que vagamente. Baba não dominava a leitura e a escrita, por isso tinha dificuldade para escrever. Mas a mensagem é essa, o conteúdo é fiel dentro do possível permitido pela minha memória já prejudicada pelo tempo. Afinal quarenta anos não são quarenta dias.
Enquanto Baba escrevia eu ficava a seu lado tentando corrigí-la, mas sem sucesso. Ela continuava escrevendo e me parecia muito segura. Ficamos ali sentadas por bastante tempo naquela tarde até que ela conseguisse terminar de escrever e colocar no envelope que pegara de seu bazar.
Acho que todos ficaram sabendo da existencia dessa carta pois ela mesma contou orgulhosa seu feito. Rimos muito  disso na época pois ela dizia que o neto saberia entender sua letra. Até hoje quando lembramos disso damos boas risadas, e, claro, sentimos muito orgulho da coragem e da pureza de sentimentos da nossa Baba.
Soube recentemente que o destinatário nunca soube da carta. Era esperado pois o endereço deve ter ficado pouco legível. Também nunca voltou às mãos do remetente. Baba Dominichia partiu acreditando que seu neto lera sua carta e imaginando que ficara muito feliz em receber noticias suas.
A carta foi postada pelo Dade e deve ter se extraviado no tempo e no espaço.
João Claudio ficou surpreso quando soube desse fato pois nunca lera a tal carta. Agora, aqui, fica a carta guardada para sempre. Não a real, a verdadeira, que tem seu paradeiro desconhecido. Mas a essência fica aqui transcrita com a certeza de que o que ela quis dizer, de forma bastante simples, é que o amava.

16/04/2011                 08:06

sexta-feira, 15 de abril de 2011

BONECA DE LOUÇA

Meu tio  morou conosco durante algum tempo. Eu era muito pequena ainda, mas lembro-me de muitas coisas desse tempo. Ele devia trabalhar em alguma escola, pois suas conversas com meu pai e minha mãe giravam em torno disso. Como era só eu de sobrinha, sempre tinha alguma coisa para me dar de presente.
Meu tio tinha muita habilidade com a comida. Fazia uma maionese que guardo na memória até hoje. Acho que todos nós, seus sobrinhos, chegaram a experimentar essa comida que ele preparava tão bem. Até hoje nunca consegui achar alguém que preparasse esse prato com tanta propriedade.
Um dia meu tio entrou pela porta com uma enorme boneca de louça. Tinha um vestido vermelho de veludo, mas não era um vestido qualquer, era um vestido de festa, longo, de saia franzida, com várias armações que davam a ela ares de rainha.
Quase entrei em choque, imaginando-a em meu colo. Mas ele chegou dizendo que iria dá-la de presente à alguém. Esse alguém não era eu. Olhando para minha expressão de espanto, disse-me que, caso mudasse de ideia, eu ganharia a boneca.
Corri para meu quarto e comecei a fazer promessas e orações pedindo que a boneca viesse parar em minhas mãos. Não sabia que motivos o levariam a mudar de ideia, mas nem me interessei em descobrir. Meu foco naquele momento era apenas a tal boneca. E eu é claro.
Passados alguns dias, ele me chamou carinhosamente e disse que a boneca era minha.
Não sei descrever minha emoção quando peguei  a tal boneca que era quase maior que eu. Coloquei-a em uma cadeira, sentada elegantemente e ali passei a brincar com ela. Tinha um ciume enorme e não gostava que ninguém a pegasse. Afinal, tinha tido muito trabalho para conquistar o direito de tê-la.
Tempos depois minha irmã nasceu e tive que dividí-la com ela. Mas cada vez que a pirralha encostava na boneca eu ficava mordendo os lábios de tanta raiva. A boneca ficou comigo por muitos anos, sempre sentada naquela cadeira, enfeitando o ambiente. Ela foi a boneca mais linda que tive. Não falava, não se mexia, não fazia absolutamente nada. Apenas me encantava. Isso me bastava.
Até hoje não sei quem receberia a boneca em meu lugar. Mas devo admitir que ela não poderia ter vindo em melhores mãos que as minhas. Eu a amei muito e ela vive em minha memória até hoje.
Tenho que agradecer meu tio por esse mimo e sempre que me lembro dele vem à lembrança a linda boneca de louça de vestido de veludo vermelho que fez meu coração bater muito forte um dia.

Esse é meu tio Antonio Pompeu Ruggieri, o tio Toninho, que hoje mora em Avaré junto com Elda, sua esposa e já é vovô. Meu carinho para você e muito obrigada pelo seu carinho por mim. E pela boneca de louça com vestido de veludo vermelho.

15/04/2011                  07:23

CALOR HUMANO

Era mês de Julho do ano de 1981. Resolvemos passar férias em casa de meus tios em Pacaembú. Fomos eu, Bob, Tiago, Adriana e Alexandre. Pensamos em ir de trem, que era um sonho de meus irmãos que ainda não tinham feito uma viagem assim antes. Como minha mãe havia morrido tinha pouco tempo e meu pai havia se casado novamente nós mimávamos bastante os pequenos.
Começamos a nos preparar, arrumar malas, providenciar máquinas para tirar fotos, etc. Todos diziam que lá fazia muito calor, então não precisaríamos levar roupas quentes. Seguimos as orientações dos mais experientes e preparamos as malas cheias de roupas de verão, como se fossemos passar férias em praia no mês de Dezembro. Apenas Tiago, que ainda era um bebe, teve em sua bagagem cobertores e roupas mais quentes.
Já durante a viagem começamos a sentir um pouco de frio. Eu tinha apenas um casaco que coloquei no bebê para aquecê-lo, os outros ficaram se ajeitando como podiam. Quanto mais nos aproximávamos da cidade mais frio fazia.
Quando desembarcamos a temperatura era tão baixa que mal conseguia ser medida nos termómetros do local que nunca tinha sentido um frio desses. Foi o primeiro ano em que chegou a gear na cidade, quase um fato inédito numa região que desconhecia cobertores, botas, toucas...
Mas todo o frio era compensado pelo calor dos corações das pessoas que nos receberam. A casa muito aconchegante nos acolheu e nos aqueceu. As pessoas nos abraçavam tão carinhosamente que o frio ficava pequeno.
Minha tia saiu comigo uma tarde e comprou um cobertor para o bebê e um perfume. Passou o perfume nele e disse que bebes precisam ficar sempre cheirosos. Colocou-o em seu colo e o embalou carinhosamente. Ela sempre foi muito carinhosa com todos e até hoje deve mimar muito seus netos.
À tarde, tia Lili colocava a mesa para tomarmos café e ali sentávamos e ficávamos contando as novidades entre bolos  e guloseimas que ela preparava com todo cuidado.
Quando eu e Bob nos casamos ela nos deu um cobertor enorme para nos aquecer pois dizia que aqui era muito frio. Esse cobertor nos acompanhou por vinte e nove anos, sempre foi meu preferido. Um dia, muito pouco tempo atrás, meus filhos penalizados com a situação de alguém deram meu cobertor embora. Não me conformo até hoje. Espero que ele esteja acarinhando e protegendo do frio alguém que mereça usá-lo.
Voltamos da viagem e todos riam muito quando contávamos que a temperatura lá tinha desafiado a lei da natureza e as previsões dos que a conheciam. Mas apesar do frio a viagem foi ótima e tenho fotos guardadas até hoje. Uma em especial me agrada. Estamos na estação, todos juntos na hora da despedida. Meu tio com Tiago no colo. Guardo essa foto com muito carinho. Guardo essa viagem também com muito carinho.
E meus tios, esses então guardo com o maior carinho do mundo. Eles são especiais.

Esses são meus tios Mario Thiago, o tio Babão e Maria Célia, a tia Lili. Para vocês, meu carinho, meu respeito e minha admiração.

15/04/2011                     07:46

quarta-feira, 13 de abril de 2011

DE...PARA

Leonardo, esta cartinha tem um tom de despedida, ou de um até breve; voce cresceu e percebo que está se transformando em um lindo jovem.

Desde seu nascimento até agora sempre estive a seu lado. Sabe, não me lembro de ter falhado um Natal sequer. Nesse dia, sempre por volta da meia noite e apesar de tantos compromissos nunca deixei de te visitar. Algumas vezes passei rapidamente e voce nem me viu. Outras vezes contei com a ajuda de seu irmão Tiago, de seu irmão Bruno e de seu tio Sergio.

Menino, voce cresceu e como  não mora na Terra do Nunca minha lenda desaparece. Mas quero estar sempre presente no seu coração. Sabe, mais do que uma figura acho que sou um sentimento... Por isso espero que ele se mantenha vivo em todos os Natais de sua linda existencia.

Leo, nesse Natal eu não viria, mas como sou seu amigo e seu protetor, aqui de onde estou vi que o jogo que voce mais gosta quebrou. Que sorte que no meu estoque de brinquedos havia ainda um...apenas um...reservei rapidamente para voce e espero que te traga alegria. No próximo Natal quem irá assumir meu papel será o seu pai, mas eu sempre estarei aqui de longe te protegendo, ajudando seu pai para que nada te falte.
Espero que o sentimento do Natal e a minha figura se perpetuem e te digo, menino, mais do que uma despedida é realmente um até breve, pois quando voce estiver bem maior e seus filhos vierem, junto com eles eu voltarei. E aí sim voce verá que mais que uma lenda eu sou real no coração de todos que um dia foram crianças.

Beijos do Papai Noel.

Dezembro/2003

Esta cartinha foi escrita por Bob que naquele momento tomado pelo sentimento de Papai Noel, a escreveu despedindo-se de Leo. Naquele ano de 2003 estávamos com muito pouco dinheiro para comprar presentes, mas fizemos um grande esforço pois o brinquedo preferido do menino havia se quebrado. Acho que Papai Noel nos ajudou e conseguimos dar um brinquedo novo. Leo já não mais acreditava cegamente em Papai Noel, mas ainda esperava ansioso que ele chegasse no Natal. Ele ou sua lenda.
Achei muito bonita a mensagem que ele passou, emocionate. Realmente é só um até breve. Papai Noel voltará dentro em breve para alegrar nossos corações. Assim espero.

13/04/2011                          18:41 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

VAZIO

Tio Vasile morava no Rio de Janeiro, por essa razão não estavamos sempre a seu lado. Vinha nos visitar algumas vezes, passava alguns dias aqui, e depois ia embora demorando tempos para voltar. Sua presença era sempre festejada, ele trazia sua esposa e seus filhos e faziamos almoços e  jantares e cafés da tarde reunidos à volta da mesa ouvindo e contando novidades.
Sua esposa tocava órgão na igreja e participava do coral; esse era seu assunto predileto. Tinham uma religião que não sei dizer qual era, mas eram pessoas de muita fé. Em uma de suas visitas ele disse à minha bisa que quando ela morresse iria queimar todos os quadros e imagens de santos que ela possuia. Dentro de sua crença quadros e imagens eram desnecessários. Mas para a bisa eram muito importantes.
Discutiram e ela ficou tão brava que desde esse dia nunca mais ele veio nos ver e nem mandou noticias. Não me recordo se ele esteve presente quanto Baba e Dade partiram.
Sua irmã,tia Teodora, morava perto de nós. Nos visitava sempre mas aos poucos foi se afastando, se fechando em seu mundo e se distanciando de nós. Ela era muito parecida com a mãe, a bisa. Tinha uma vida tão sofrida que ás vezes acho que não nos visitava muito para que seus pais e irmãos não sofressem. As lembranças que tenho dela são tão distantes quanto ela foi.
Ambos já não estão mais entre nós, já partiram. Minha convivencia com eles foi tão pouca que não tenho muitas histórias para relembrar e poder contar. Não consigo sentir sequer suas ausencias. Acho que senti muito pouco suas presenças.
Lamento muito não ter tido mais intimidade com essas duas pessoas. Afinal, fizeram parte de nossa família. São parte de nossa história, que hoje tento resgatar.
Mas parece que não consigo.
Que pena, ficou um vazio!

11/04/2011          15:03

domingo, 10 de abril de 2011

ATÉ UM DIA

Conheci Sr.Antonio Faria em 1976. Fui com Bob à sua casa e me apresentou o homem que era seu pai. Foi bastante simpático e me recebeu muito bem. Estava sentado à mesa e convidou-me a me sentar também. Era bonito, pele morena, parecia galã de novela.
Iniciamos uma conversa e uma das primeiras perguntas que me fez foi para que time eu torcia. Nunca fui muito ligada a esportes, muito menos em futebol. Mas lhe disse que tinha certa simpatia por um time do qual meu pai era fervoroso torcedor. Sr. Faria debruçou-se sobre a mesa bastante aborrecido. Era o time rival ao seu. Não se conformava.
Mas, mesmo assim acabou me aceitando e passamos a ter um relacionamento até amistoso.
Convivíamos pouco e assim convivemos por dois ou três anos.
Certa vez ele começou a queixar-se de dores de dente e iniciou um tratamento que se prolongou por um tempo. Numa das idas ao dentista precisou arrancar um dente.
Cheguei à sua casa numa tarde e lá estava ele com o lado esquerdo do rosto inchado. Escreveu-me um bilhete dizendo que havia arrancado o tal dente e por isso não podia falar. Pediu-me que esperasse um pouco pois precisaria sair para dar um telefonema. Naquela época não tinha telefone em casa e quando precisava falar com alguém saia a procura de um "orelhão".
Li o bilhete várias vezes, e quanto mais eu lia menos eu entendia. Como ele não podia falar e saia para dar um telefonema?! Como assim?!
Passado algum tempo ele retornou e continuou mudo. Não lhe perguntei se havia conseguido falar ao telefone. Conversamos pelo olhar e através de alguns pequenos gestos ofereceu-me um café que tomei olhando atentamente para ele tentando decifrá-lo.
Como não chegamos a ter muita intimidade o silencio veio até a calhar naquele momento.
Tempos depois seu estado se agravou e a doença foi tomando conta de seu corpo e de sua alma.  Não era apenas um problema dos seus  dentes, era muito mais que isso. Aquele homem bonito de pele morena começou a se transformar em um homem pálido, de olhar triste e pensativo, com pouca expressão, quase sem vida. Foi definhando lentamente.
Uma noite recebemos a notícia de sua partida.
Corremos para lá no hospital onde estava seu corpo. Precisávamos prepará-lo para sua despedida, vestí-lo com sua melhor roupa. Os filhos não conseguiriam dar conta disso. Fomos eu e minha sogra e o preparamos com todo carinho que pudemos ter naquele momento.
Nunca tinha feito nenhum agrado a ele no pouco tempo de convivência que tivemos. Nenhuma gentileza. Não tivemos tempo para estabelecer uma relação mais profunda de amizade; o tempo nos privou desse prazer. Acho que teria gostado de conhecê-lo melhor.
Mas fiz por ele o que me coube na sua despedida. Espero ter deixado tudo à seu gosto. Espero que tenha chegado ao lugar onde foi feliz por ter recebido esse pequeno carinho.
Quem sabe um dia nos reencontremos, meu caro Sr.Antonio Faria. Por hoje só me resta lhe dizer:

-Até um dia, até talvez, até quem sabe...

10/04/2011                              13:43

sábado, 9 de abril de 2011

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Eu tive um avô especial. Muito especial. Era bom, honesto, cheio de exemplos que fizeram seus filhos serem também assim. Especiais.
Durante toda minha infancia esperava ansiosa a chegada das férias para ir até onde ele morava e ficar lá o tempo todo.
Meu avô tinha um armazém, desses que existiam antigamente e que vendiam de tudo um pouco. Naquele tempo não existiam supermercados, muito menos hipermercados. Então, o seu armazém era um sucesso.
Lembro-me das tinas onde ficavam os cereais, das prateleiras que armazenavam latarias, condimentos, corda, pregadores, materiais de papelaria. Vendia também sandálias. Havaianas.
Um dia ele me deu uma que até hoje considero como a mais bonita que tive. Vinha com duas tiras que poderiam ser trocadas quando a outra se partisse. Tinha a sola branca e a tira azul clara. O refil era de outra cor. Fiquei torcendo para que a tira quebrasse logo para trocá-la pelo refil.
Eu gostava de ficar ali no armazém para fingir que trabalhava. Ouvia atentamente o que meu avô dizia para seus clientes e na minha imaginação fazia o mesmo. Enquanto ele vendia para seus fregueses, eu vendia para os meus. Claro, os meus eram personagens fictícios existentes no meu mundo de sonhos de criança. Eu vendia, cobrava e até dava troco. Tudo na imaginação.
Acho que a partir daí, desenvolvi o dom que hoje tenho para o comércio. Vivendo e aprendendo com meu vô Péu. Era assim que todos o chamavam: Péu.
Uma manhã acordamos com a notícia de que havia tido um incendio na casa dele. Por sorte ele fora retirado sem nenhum arranhão das chamas que acabaram por destruir seu armazém.
Ficamos todos muito tristes. Naquele tempo não existia seguro, e sendo assim o fogo destruira todo o patrimonio que meu avô tinha construído ao longo dos anos e com tanto esforço.
Desde então vô Péu passou a se afastar cada vez mais da realidade. Acho que era tão dura para ele que resolveu criar uma outra realidade onde pudesse se sentir mais confortável. Reconstruiu sua casa como pode e nela morou até o dia de sua partida.
Continuou alegre como sempre foi, mas sua alegria me parecia diferente. Estava distante, recluso no mundo que havia criado para poder viver sem sentir a dor da derrota, da destruição. Todos os seus sonhos de anos haviam se acabado numa noite. Dizem até que alguém colocou fogo propositalmente para apagar alguma coisa. Eu não me recordo de detalhes da história.
A única coisa que sei é que nunca mais meu avô foi o mesmo.
Viveu por um bom tempo no seu mundo, entre realidade e sonho, entre razão e sensibilidade, divagando, indo e voltando de seus delírios.
E assim, um dia ele se foi. Estavamos junto dele na hora de sua partida. Eu, meu tio Antonio e minhas tias Thereza e Antonieta. Se minha memória não falha, acho que foi numa quarta feira de cinzas.
Ironicamente, salvou-se do incendio e morrera nas cinzas.

Para meu querido avô Pompeu Ruggieri, que me ensinou a arte do comércio e muitos dos valores que hoje tenho e dos quais muito me orgulho.

09/04/2011                      11:04

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A DAMA E O CAVALHEIRO

Não sei por que razão gosto tanto dela. Mas gosto e isso me basta. Nos vemos vez ou outra sempre nos finais de semana, na madrugada adentro, onde ficamos por horas falando sobre coisas sem nexo e coisas com nexo.
Entre assuntos sérios e banais vamos vendo o tempo passar rapidamente. Acho que assim tanto eu quanto ela deixamos de lado as preocupações e as decepções que a vida nos dá às vezes. Vamos esquecendo de tudo o que nos aflige porque de certa forma falamos sobre essas aflições.
Vou olhando a mesa que começa a ficar cheia de latinhas de cerveja, papéis de chocolates, pratinhos com guloseimas, cinzeiros com pontas de cigarro. Lá fora a noite faz seu silencio profundo nos tocar. Conseguimos ouvir o silencio da noite.E sempre engatando um assunto no outro.
Falamos de viagens, olhamos fotos, procuramos pacotes de viagens que podem vir a ser úteis dentro dos nossos delírios. Sonhamos e planejamos mil coisas, desde pequenos passeios, baladas, viagens curtas e longas. Futuro e passado estão sempre presentes em nossos momentos de delírio.
Mas como isso é bom. Ela sempre vem ocupar um espaço no meu vazio. E consegue tornar minha noite um pouco melhor. Bem melhor até. E eu a dela, eu acho.
Outro dia entrou aqui para me trazer um presente. Fora viajar e lembrou-se de mim. Comprou uma coisa que deve ter achado que combinaria comigo. Quando compramos um presente para alguém ele deve ser parecido com esse alguém. E acho que foi assim que ela escolheu meu presente.
Trouxe-me um lenço branco, com detalhes em azul e fios prateados a enfeitar o tecido fino de pura seda. Leve e delicado. Brilhante. Elegante. Algumas franjas a cair de suas bordas para dar a ele  movimento.
Será que assim ela me vê? Fiquei lisonjeada e emocionada com esse gesto de carinho. Tomara ele me veja como o lenço que deu.
Eu consigo vê-la assim, leve, delicada, apenas usando como defesa alguns gestos mais bruscos.Só como defesa. No fundo é assim como o lenço de seda. Suave e delicado. No íntimo e pessoal é só uma pessoa em busca de um grande amor igual ao de conto de fadas. É uma Branca de Neve esperando atentamente pelo seu Príncipe Encantado. Ela é só uma dama esperando pelo seu cavalheiro. Ele deve estar em algum lugar, escondido, talvez com medo de chegar até ela. Mas ele vem, ele chega. É só esperar.

Essa é para você, Camila Luvisoto, minha companheira de noites de fins de semana, avançando pela madrugada adentro, sempre com boas risadas, alguns lamentos e bons porres!

08/04/2011                        22:04

RADIO PATRULHA

Era Carnaval. Década de 60. Época da Jovem Guarda, da Bossa Nova, da Ditadura.
Naquele tempo costumávamos nos fantasiar para irmos aos famosos bailes de Carnaval. Começávamos no sábado e só parávamos na terça-feira.
Os preparativos começavam a ser feitos logo no início do mês. As fantasias eram elaboradas, com direito a muito brilho, máscaras, maquiagens exuberantes, cabelos coloridos com rinsagens e com muitos adornos a envolvê-los.
Meu primo era um jovem contestador. Estava naquela idade em que a palavra de ordem é Contrariar.
Servia nesse tempo o exército e por isso tinha aquela roupa com nome de farda, verde, cheia de botões, aquele coturno que demorava muito tempo para ser colocado e amarrado e aquele boné que dava ao traje uma elegância à toda prova.
Foi assim, vestido desse jeito, que o jovem resolveu ir para o baile de Carnaval.Fantasiado de militar?...Reco?...Soldado? Nem ele sabia.
Pulou e brincou a noite toda; acho que deve ter se esbaldado.
Na hora da volta para casa estava tão cansado que resolveu cortar caminho. O único atalho que encontrou foi uma rua que, para usá-la como atalho, deveria ser percorrida na contra mão
E assim o fez: desceu na contra mão vestido com uma farda de Tiro de Guerra.
De repente surge assim, do nada, uma Rádio Patrulha (era assim que se chamavam as viaturas de polícia naquele tempo). Ela vinha na mão correta.
O choque foi inevitável. Os dois carros bateram: o da polícia na mão correta e o de meu primo na contra mão vestido com a farda.
Foi uma confusão e tanto. Todos correram para resolver a situação que imagino eu tenha sido bastante complicada.
Não sei como fizeram, mas resolveram tudo e o tal primo a partir daí passou a contestar menos o que não deve ser contestado.
E acho também que nos carnavais que se seguiram ele deve ter se fantasiado de Nacional Kid.
08/04/2011                  19:48

COMO AS COISAS MUDARAM

Era uma tarde de sábado.Estávamos na casa de meus tios,sentados à mesa da cozinha. Eu, meus tios e minhas primas. Tomávamos o café da tarde com bolo de fubá e queijo branco.
Meu primo havia se casado tempos atrás  e sempre nos fins de semana vinha visitar o pai.
Naquela tarde ele e minha prima entraram com ares renovados. Tinham no rosto uma expressão de alegria e no olhar um certo mistério. Ele parou na porta da cozinha e disse:
-Aydé está gravida. Eu vou ser pai.
Meu tio ficou calado, cabeça baixa, olhos a olharem sorrateiros e constrangidos ao redor. Depois de um tempo em silencio, disse com voz forte:
-Vamos falar disso depois. Isso não é assunto para discutir na frente das meninas.
As meninas éramos eu e minhas duas primas, já com uns quinze anos ou perto disso.
Tivemos que deixar a cozinha e ir para a sala para que os adultos pudessem conversar à vontade.
Eu não me conformava, era sempre a mesma coisa: cochichos, olhares sorrateiros, tudo mudava quando o assunto era esse.
Nesse tempo eu já sabia que a cegonha era apenas uma lenda...
Que dentro daquela barriga enorme havia um bebê que só conseguiria sair dali de duas formas: por um buraco feito pelo médico ou pelo outro feito pela natureza...
Já sabia também como as crianças entravam ali, mas isso só assim por alto...Muito por alto.
Sabendo muito ou pouco acho que já era hora de podermos participar dessas conversas. Mas só eu achava isso.
Aos poucos fomos crescendo e pudemos então permanecer durante os encontros onde esse assunto viesse à tona. Esse e tantos outros.
Hoje quando vejo uma mãe contar para a criança de quatro anos que ela vai ganhar um irmãozinho e que ele está dentro da sua barriga sempre penso:
Como as coisas mudaram!

08/04/2011                          19:24

A SOGRA E O SANTO

Depois de alguns anos de namoro eu e Bob resolvemos nos casar. Marcamos a data e fomos até a casa dele contar a todos nossa decisão.
Durante o almoço, sentados à mesa, falamos sobre a decisão e a data que havíamos escolhido.  Sobre planos futuros, sobre nossas expectativas, nossos sonhos, etc. e tal .
Tudo transcorria normalmente até que, lá pelas tantas, minha sogra me disse:
-Muito bem, agora você pode me devolver o Santo Antonio.
Fiquei pensativa, sem entender do que ela falava até que respondi não saber do que se tratava.
Ela me explicou que tempos atrás me ensinara uma simpatia para fazer o namorado casar. De acordo com essa simpatia devia a noiva roubar da sogra uma imagem de Santo Antonio. Mas que, uma vez marcado o casamento o santo poderia ser devolvido ao dono sem prejuízo à graça alcançada.
Continuei sem entender, pois não me lembrava da tal conversa e nem havia roubado o santo. Eu nem era assim tão devota.
Ficamos algum tempo discutindo o assunto; eu dizendo que não havia roubado o santo e ela me pedindo que eu o devolvesse. Até que meu cunhado Ricardo bateu na mesa e disse:
-Ela já disse que não pegou o santo!
Fez-se um silencio cercado de certo mistério. O que afinal havia acontecido com o santo? Eu me perguntava que destino ele poderia ter tomado; ela deveria estar se perguntado por que razão eu não queria devolvê-lo.
Logo que cheguei a minha casa me pus a rezar e pedir ajuda a fim de localizar o santo fujão.
Pedi a ajuda de São Longuinho que sempre sai em busca de objetos perdidos.
Clamei por Santo Expedito, aquele das causas impossíveis, pois era assim que via a situação no momento.
Chamei Nossa Senhora Desatadora de Nós, na expectativa de que ela pudesse me ajudar a desatar o nó que havia se formado a partir do sumiço do santo.
E, por último, dei um ultimato a Santo Antonio que estava me colocando numa tremenda saia justa  com a sua brincadeira de esconde esconde.
Dias depois o santo apareceu. Não sei se por força de toda a equipe que coloquei à sua caça ou se pelas orações da sogra.
Ele estava atrás do sofá...de cabeça para baixo. Não tenho a menor ideia de como ele foi parar lá nessa posição tão ingrata e incomoda.
Eu nunca havia visto o santo antes desse dia. Mas acho que a sogra até hoje ainda pensa que o santo esteve comigo por um período.
 E que eu apenas encontrei um jeito diferente de devolvê-lo.

08/04/2011                                          19:07

VAMPIROS E DRÁCULAS

A viagem seria longa. Estávamos indo a uma cidade distante visitar nossos primos que moravam lá. Era uma cidade pequena, ainda em início, com poucos requintes de progresso. Pouco urbanizada. Mas estava trazendo muita alegria para os que migraram para lá. Então, resolvemos visitá-los e partilhar um  pouco de sua vida. Fomos em quatro pessoas, eu, meu primo e duas primas.
A viagem fora longa e cansativa, quase um dia inteiro. Chegamos lá à tardinha e fomos recebidos com muitos abraços e muita festa. A casa era simples e muito aconchegante. Construção antiga eu acho, daquelas que não tem o forro. Era aquela típica casa de interior, casa de avô e avó. Chão de madeira na sala e nos quartos e de cimento com pontinhos coloridos na cozinha e no banheiro.
Existia muito calor humano na casa e um calor de 42 graus na cidade. Chegamos e já corremos para o banheiro tomar um banho para espantar o calor. Tínhamos que tomar banho frio pois o frio de lá era o quente daqui. Saiamos do banheiro já cheios de suor escorrendo pelo rosto, nos abanando como se acabássemos de sair de uma sauna. Meus primos riam muito, pois já haviam se acostumado com a alta temperatura.
Levaram-nos para conhecer a cidade; fomos até a Prefeitura, visitamos alguns comércios, fomos tomar sorvete na sorveteria da praça. Conhecemos alguns índios que eram moradores das regiões vizinhas. Eu adorei essa aventura. Tudo para eu e minhas primas era novidade.
Numa noite sentamos para assistir televisão e conversar. Meu primo nos contava que a fauna e a flora da região eram ricas. Ainda havia lá muito verde que fazia do local um espetáculo da natureza.
Mas havia também bichos ferozes, pois afinal estávamos no Mato Grosso,  isso há quase quarenta anos atrás. Eu ficava bastante curiosa com a possibilidade de ver uma onça, uma cobra daquelas gigantes que até então só vira nos livros. Mas ele dizia também que tinham os bichos "caseiros", quase inofensivos, como aranhas, baratas, morcegos.
Morcego para mim era protótipo de Conde Drácula. Adorava assistir filmes de terror e ver o morcego se transformar naquele homem gigantesco com dois dentes caninos se destacando. Morria de medo mas assistia.
De repente ouvimos um barulho vindo do chão; alguma coisa caíra do teto sem forro e se estatelara no chão rastejando devagar sem rumo certo. E não é que era um morcego?! Fiquei tão pasma que sequer consegui tremer. Não consegui mover um músculo. Não sei exatamente o tamanho do bicho mas representou-me ser gigante e parece que crescia quanto mais eu olhava para ele. Imaginei-o se transformando no Conde Drácula dos filmes de terror e vindo até meu pescoço com os dentes afiados para sugar meu nobre sangue.
Meu primo espantou o Drácula com propriedade, parece que o conhecia e tinha com ele muita intimidade. Passei depois disso, a olhar para cima enquanto lá estive pois sempre ficava com medo do que vinha do alto.
Numa tarde me descuidei e estava andando pelo quintal quando senti uma pancada na cabeça. Fechei os olhos e rezei. Será que Drácula vinha agora para se vingar de mim? Mas eu não tinha feito nada a ele. Foi meu primo que o mandou embora. Abri os olhos lentamente para ver o que tinha acontecido; que ser era esse que caíra em minha cabeça? O que ele queria de mim?
Ah! Que susto! Era só um abacate que caíra do pé e azar o meu se estava em baixo parada exatamente no momento certo em que ele não aguentando mais ficar preso resolveu voar. Naquele instante minha cabeça foi seu chão. Nela ele aterrissou. E daí foi ao chão, para meu alívio e seu descanso.
Até hoje nos lembramos disso e ainda hoje, rimos com essa lembrança, eu e minha prima moradora da casa sem forro.
Nunca mais assisti filmes de vampiros e Dráculas. Não sei se eles existem, mas que um dia eu vi um protótipo de um... isso eu vi.

Meus primos Waldomiro e Ayde um dia foram viver uma grande aventura num lugar distante. Hoje estão de volta morando aqui perto de nós.
 Nós, eu, Juceli, Lucia e Antonio Carlos fomos os visitantes aventureiros a lhes levar noticias daqui.


08/04/2011                 11:17



quinta-feira, 7 de abril de 2011

TRES CAVALHEIROS E UMA DAMA

O primeiro veio de forma inesperada. Foi benvindo. Tem um coração bom que só. É meigo e doce, fala muito, se comunica muito bem. Tem um temperamento forte, às vezes as coisas tem que ser como ele quer,se não for assim, reclama, fala até não poder mais. Se precisa de ajuda, pede sem nenhum pudor. Se precisa ajudar, ajuda com muita disposição. Às vezes também, se mete em pequenas encrencas que costuma resolver sozinho. Mas sempre partilha conosco tudo o que pode e deve. Sua presença sempre espalha alegria, costuma gostar de tudo que lhe dão, é sempre grato. Fala mansa, conquista tudo que quer sem muito esforço. É bom companheiro e tem bom gosto nas suas escolhas. Trouxe para nossa famíla alguém que veio somar. A doce Marilia que o completa e que nos completa. Minha querida amiga e companheira. Sei que posso contar com ambos em qualquer situação que precise. Às vezes ralha comigo. Quando nasceu lhe dei um nome: Tiago. Hoje simplesmente Tuca, carinhosamente Tuca. É quase meu pai.
O segundo veio de forma mais inesperada ainda. Foi benvindo. Seu coração é maior que ele. Mas é exigente, precisa de um motivo forte. Nas situações em que a solidariedade é necessária é só chamá-lo que ele vem e permanece o tempo que for preciso, até que a situação acalme. Calado, pensativo. Sempre pensativo. Às vezes parece estar tão longe, tão distante. Talvez ainda não tenha encontrado seu caminho. Seu par ainda está escondido lhe esperando em algum lugar.Compartilhanmos por vezes de algumas traquinagens. Procuro protegê-lo e ele a mim. Tem um riso forte que escuto de longe. Nunca soube se é realmente feliz. Mas sei que posso contar com ele sempre. Lhe dei um nome: Bruno. Hoje Sassa, simplesmente Sassa, carinhosamente Sassa. É quase um irmão.
O terceiro veio de forma muito mais inesperada ainda. Já não mais esperava filhos; mas ele apareceu e já veio se impondo e dizendo a que vinha.  Vinha trazer mais alegria a nossa casa,  vinha  completar o que faltava. É doce e meigo, tem uma fala mansa que envolve a todos. Mas tem um temperamento forte, gosta de tudo do jeito dele. E acaba conseguindo sempre as coisas com muita conversa mole. Pede de forma a nunca ouvir não, mas se ouvir lida bem com isso. Deixa para depois. Mas depois pede novamente. Lhe dei um nome: Leonardo. Depois Leo. Hoje Leozinho, simplesmente Leozinho, carinhosamente Leozinho. Sempre me dá a mão. Ainda anda de mãos dadas comigo pela rua.
Marília veio pelas mãos e pelo coração de Tiago. Toda jeitosa, inteligente, habilidosa com os sentimentos. Preocupada em ajudar, em não magoar. Conquista tudo sempre com seu jeitinho, com sua fala meiga e doce. É parceira e solidária, tudo o que preciso e peço, se ela puder me atende. Se puder a atendo também. Nos escolhemos, eu acho. Ela cabe certinho nos nossos corações. Chegou até nós com um nome: Marilia. Hoje Ma, simplesmente Ma, carinhosamente Ma. Me abraça sempre.
Falo quase as mesmas coisas de todos, pois cada qual, com seu individual preservado, tem as mesmas caracteristicas que fazem com que cada vez mais eu os ame.  São presentes que a vida me deu e não poderiam ser melhores. Perfeitos eu não queria. Seria entedioso demais. Não poderia dar broncas, nem me estafar. Então, assim como são está bom. Nem melhores nem piores.
Por que escrevi para todos em conjunto? Por que é assim que quero vê-los sempre; unidos, em conjunto.
Lembro-me agora da cantiga de roda que conta a estória da Terezinha de Jesus que caiu e foi prontamente socorrida por tres cavalheiros de chapéu na mão.
O primeiro... o pai
O segundo...o irmão
O terceiro...aquele que deu a mão à moça.
E da menina mais bonita...um beijo e um abraço.

Para meus filhos, Tiago, Bruno, Leo e Marilia sempre com muito carinho, muito respeito e muito...muito amor.

04/04/2011                                                            09:09 horas

SOBRE AMIGOS

Querida, ontem ouvi você dizer alguma coisa sobre amigos...sobre a volta deles quando financeiramente estivermos bem...porventura.
Nem sempre isso é verdade. Quando nossa vida não vai bem nós é que acabamos por nos afastar por várias razões que limitam nossa participação na vida social.
Amigos são sempre amigos, ausentes ou presentes. Tenho certeza que seus amigos se sentem assim, independente de qualquer outra coisa. Você é uma pessoa simpática, agradável, figura sempre solicitada em reuniões descontraídas. Tem você um valor especial, que tenho certeza, todos vêem.
Com seu estilo próprio, com seu jeito de ser só seu, peculiar e às vezes até folclórico; mas você é uma pessoa especial.
Existe muita coisa bonita dentro de seu coração, de sua alma. Eu particularmente, gosto sempre de tentar desvendar os mistérios da alma, não sei se consigo. Mas tentando desvendar os mistérios da sua alma, vejo uma pessoa com ares de austeridade, mas com uma delicadeza ímpar que se torna presente em tudo que você faz à sua volta quando se dedica a fazer arte.Tem você uma sensibilidade voltada ao que é belo e delicado.
Tem você o dom de enfeitar o que pode e merece ser enfeitado.Isso é mágico. Isso é dom de alguns.
Tem você a magia nas mãos, o toque impecável da delicadeza, o dom de transformar o lugar comum em destaque. Tem você o poder de tornar festa aquilo que aparentemente seria apenas um encontro sem grandes pretensões. Tem você o poder de transformar em banquete um simples jantar.
Por estas e outras razões acho você uma pessoa com um interior rico e, sendo assim, todos os seus amigos devem gostar de estar em sua companhia. O dinheiro apenas nos permite fazer mais coisas, estar mais junto, participar mais efetivamente de algumas coisas.
Mas o que fica mesmo  são os momentos de boas risadas, de uma cervejinha bem gelada  ao redor de uma mesa falando algumas bobagens e entremeando com algumas conversas um pouco mais sérias quando o momento pede e permite.
E assim vamos levando a vida, entre amigos e pessoas que chegam e vão embora às vezes sem deixar rastros. A única coisa que fica são os momentos.
Portanto vamos aproveitar o momento e beber uma cervejinha. Não sabemos até quando poderemos fazer isso...Não sabemos quanto tempo nos resta para vivermos...
Eu guardarei de você boas recordações com muito carinho, muita reverencia e muito amor.
Para minha amiga Catia, que neste início de ano estava precisando muito ouvir essas palavras.


01/01/2011                            13:53 horas

PASSAR PELA VIDA E NÃO VIVER

Estávamos sentados durante o almoço quando ouvimos alguém bater no portão. Eu desci correndo para ver quem era. Lá  estava um homem alto que me perguntou se eu era eu. Respondi que sim e o homem me disse com voz forte:
-Sou seu avô José.
Saí correndo assustada. Meus avós haviam se separado quando minha mãe ainda era muito criança e eu nunca tinha visto meu avô José. Das poucas vezes que falaram sobre ele o tom da conversa era sempre cheio de mágoas e rancor. Eu ouvia aquilo e imaginava meu avô um homem feio e grande, muito bravo, com quatro braços: dois para me segurar e dois para me bater.
Meu tio desceu para falar com ele. Ele havia vindo até nossa casa pois precisava resolver questões do divórcio. Meu tio tinha que assinar uns papéis. Então, viera ali para juntos irem ao cartório e terminar as questões judiciais que ainda restavam. Eu, como sempre quis ir junto; sempre que alguém saia eu queria acompanhar.
Fomos nos três, eu, meu tio Walter e meu avô. No caminho meu tio cochichou em meu ouvido que hoje seria o dia de ganhar a casinha de madeira. Toda vez que saíamos passávamos em frente à uma barraca que vendia alguns brinquedos de madeira. A casinha era meu preferido. Nunca ganhei pois era muito cara. E nesse dia ouvi que iria ganhá-la. Meu coração bateu tão forte e meus olhos se arregalaram.
Quando passamos pela pequena loja de brinquedos meu tio disse ao homem apontando para a casinha:
-Dê esse brinquedo  à menina. Ela é sua neta.
O homem ficou pensativo olhando para a casinha, para meu tio e para mim. Pensou, repensou e colocou a mão do bolso retirando o dinheiro. Comprou a casinha e me entregou. Ficamos sem saber o que fazer, ele e eu, a nos olhar sem dizer nada. Até hoje não sei dizer se o olhar do homem que era meu avô me transmitia ternura, carinho, ou se estava furioso por ter que gastar seu dinheiro comigo. Afinal, eu era uma estranha para ele e ele um estranho para mim. Nos conhecíamos apenas de ouvir falar. Mas eu ganhei o que tanto queria e isso me bastava.
Voltamos para casa apenas eu e meu tio. O avô se despediu ali mesmo e nunca mais o vimos.
Muito tempo depois, quando eu já era adulta, senti vontade de procurá-lo, saber como estava, quem sabe sentia nossa falta. Sempre que falava sobre isso ouvia as pessoas dizerem que ele não poderia sentir falta do que nunca viveu. Mas ele tinha me visto uma vez e talvez tenha despertado algum sentimento em seu coração. Afinal, ele era meu avô.
Mas soube que ele anos depois tinha partido. E partiu sem nunca ter nos procurado para dizer adeus.
Fico pensando se ele nunca sentiu vontade de conviver conosco, de conhecer os outros netos que já haviam nascido logo depois que nos vimos pela primeira e única vez. Acho que não, senão teria nos procurado.
Se ele batesse novamente em meu portão eu não mais correria assustada. Já sabia que ele não era assim tão mau. Acho até que não passava de um pobre coitado. É, alguém que abriu mão de conhecer e amar os seus, de ser por eles amado, de viver os melhores anos de nosso crescimento. Perdeu a grande chance de ser chamado de vovô. De nos ver crescendo, de passear conosco, de nos ver apagando velinhas em nossos aniversários.
Acho que ele passou pela vida mas deve ter esquecido o seu verdadeiro sentido. Meu avô não foi bom nem ruim. Nem bravo, nem chato, nem bonzinho. Ele apenas passou por nós e não nos viveu.

Meu avô se chamava José Palma e eu o vi uma única vez.
Nunca senti sua presença...
Nunca senti sua ausencia...

07/04/2011                              19:39 horas

SOMOS O QUE PODEMOS SER

Minha família teve em seus membros pessoas muito simples. Meus avós foram imigrantes que aqui chegaram para tentar uma vida melhor. Da parte de meu pai, vieram da Itália, apenas com nome e sobrenome. Da parte de minha mãe vieram da Rússia, também trazendo consigo apenas nome e sobrenome. Do qual por sinal muito se orgulhavam.
Foi aqui no Brasil que criaram os filhos. Nossas raízes não poderiam ter sido melhores.
Vieram para cá com pouco estudo, quase nenhum.Meus bisavós e meus avós dominavam muito pouco a escrita e a leitura. Trabalharam como camponeses, cuidando da terra, plantando e colhendo até conseguirem montar pequenos negócios para se manterem e manterem os filhos. Também não conseguiram dar aos filhos oportunidade de estudo. A vida deles era muito difícil, tiveram que trabalhar arduamente para seu sustento.
Os filhos dos filhos foram os primeiros frutos que puderam ser colhidos. Já conseguiram estudar, pois nesse tempo  as coisas estavam mais consolidadas. Mas também foi muito difícil. Foi à custa de muito empenho de todos. Sempre fomos muito unidos. Aprendemos a ser assim.
Cada qual lutou e conseguiu se formar. Cada qual ganhou prestígio, em áreas diferentes, em segmentos dos mais variados, mas todos ganharam. Uns se tornaram professores, outros seguiram para o comércio. E puderam através dessa evolução natural, dar à seus filhos mais do que tiveram. Mas sempre temos nossa essência lá atrás nos exemplos que pudemos guardar, nas lições que aprendemos com os primeiros...
Minha mãe virou nome de escola, meu pai chegou até a ganhar um título de comendador, meu primo ficou famoso na área da Psicologia. Meu outro primo também conseguiu seu prestígio da área da Física. Eu agora escrevo um livro com todas essas histórias e assim tento eternizá-las.
Meus ancestrais não foram famosos, nunca tiveram títulos, nem estudo, nem ficaram famosos. Nunca tiveram parentes famosos tampouco. Nem amigos famosos eu acho. Mas tiveram sua nobreza estampada nos valores que nos passaram. Não poderiam ter sido mais nobres. Não poderiam ter nos deixado herança melhor.
Com a base que tivemos pudemos construir nossas vidas e sermos o que somos hoje.
Afinal,somos o que podemos ser. Com muito orgulho.

07/04/2011                              13:07 horas

UMA MULHER À FRENTE DE SEU TEMPO

Minha bisavó era linda. Desde que a vi pela primeira vez ela já tinha os cabelos brancos enrolados em um montinho na nuca. Aos 50 anos parecia já ter 80 e aos 80 parecia ter 80. Não sei se na aparência ou no jeito de ser. Sempre teve jeito de bisa. Todos a chamavam carinhosamente de Baba.
Era uma mulher forte, decidida, batalhadora. Nada parecia amedrontá-la. Acordava todos os dias com muita disposição e passava o tempo todo fazendo alguma coisa.
Não tinha muita habilidade com palavras. Quando escrevia parecia desenhar. Mas sempre tinha uma palavra boa para dizer. Sabia confortar, aconselhar, mexer nos sentimentos com muita habilidade. Tinha um tom de voz imperativo, ao qual todos se rendiam.
Lembro-me de uma vez que ela me pediu ajuda para escrever uma carta para meu primo que morava no exterior. Ela tinha muito orgulho disso. Sentamos na mesa da sala e ficamos ali por um bom tempo. Ela escrevia e pedia que eu corrigisse. Me oferecia para escrever em seu lugar mas ela dizia que não. Deveria ser escrita por ela. Ele se chamava João Cláudio. Nós o chamávamos Cláudio, mas ela dizia que devíamos chamá-lo de João Cláudio, pois esse era seu nome. Escrevemos a carta e levamos ao Correio. Não sei se ele recebeu. Se recebeu não sei se entendeu. Ela dizia que ele entenderia pois era formado e pessoas formadas em Universidade conseguiam entender qualquer coisa. Acho que ela tinha razão. Por menos que ele conseguisse ler o que ali estava escrito saberia entender a mensagem que ela tentara lhe passar. Será que ele se lembra disso?
Baba dominava a cozinha como ninguém. Fazia uma massa que conhecíamos como melinca. Colocava a massa sobre uma mesa e esticava até parecer uma folha de papel de seda. Recheava, assava e servia a todos nós que nos deliciávamos com o prato. Passei toda minha infância observando isso e nunca consegui aprender. Acho que ninguém conseguiu. Só ela. Na Páscoa ela cozinhava ovos e os deixava coloridos. Colocava sobre a mesa que ficava enfeitada lindamente.
Tinha uma gaveta onde ela guardava um traje que dizia ser para colocar quando partisse. Cuidava dele com muito carinho. Todos os meses tirava, lavava, engomava. Era uma túnica preta com renda branca no decote.Parecia roupa de formatura. Ela dizia que devíamos estar bem vestidos para esperar o dia do Juízo Final. Foi uma das poucas pessoas que vi se prepararem para o óbvio de forma tão natural. Encarava a morte com a mesma naturalidade que encarava a vida. Coisas de pessoas sábias.
Ela sempre se adiantava à tudo. Estava sempre na frente. Tinha iniciativa. Acho que estava à frente de seu próprio tempo. Não dominava a arte da escrita e da leitura, mas dominava a arte da vida com tanta sabedoria que nos ensinou o que hoje sabemos acerca de valores.
Baba antecipou-se na hora da partida. Foi primeiro e deixou seu companheiro aqui. Deve ter ido na frente para deixar tudo preparado e esperá-lo. Foi assim que fez a vida toda. Ele a seguiu logo depois. Foi assim que fez a vida toda.
E nós, que aprendemos tanto com os dois ficamos aqui saudosos, sempre relembrando das coisas que vivemos e do quanto aprendemos com Baba e Dade. Era assim que nós costumávamos chamá-los. Carinhosamente... e respeitosamente.
E se outras vidas existirem eu tenho a certeza de que os dois estão em algum lugar olhando por nós, cuidando para que o acaso nos proteja sempre que estivermos distraídos.

Para meus bisavós Sra. Dominiquia Petrov Todorov, a Baba e Sr. Stefan Todorov, o Dade, grandes nomes da  nossa história de família.


07/04/2011                          10:19 horas

O SAPATO DO NOIVO

Mais um casamento de primo. Esse não exigiria viajar para outra cidade. Mas exigiria todos os preparativos que se fazem necessários nessas ocasiões.
Eu e minhas duas primas resolvemos nos vestir de forma uniformizada. Como um trio de vasos. Escolhemos os tecidos para que a costureira pudesse fazer nossos trajes. Como sempre, eu me encantava com esse momentos que antecedem qualquer festa. Como era bom planejar, sonhar, ficar esperando ansiosamente pela chegada do grande dia.
Escolhemos um modelo básico, vestido justo, curto, sem mangas, decote redondo. Um tecido lindo coberto por uma renda mais linda ainda. Duas de nós iriam de azul e outra de rosa. Mas todos os acessórios deveriam ser da mesma cor da roupa. Assim não haveria perigo de misturar cores que não se combinavam. Até hoje não sei bem porque nos vestimos assim. Talvez tenhamos sido damas de honra. Talvez...
Na casa da noiva não íamos muito. Mas na casa do noivo os preparativos andavam a todo vapor. Escolha de roupas, meias, sapatos, tudo impecável, tudo novo.
Enfim, depois de tantos preparativos, o dia do casamento chegou. Acordamos muito cedo para nos prepararmos para a cerimonia. Fomos arrumar os cabelos, até consegui usar um pouco de maquiagem com o aval de meu pai. Usei meias finas para acompanhar o sapato que nessa época já tinha um pequeno salto que me deu ares de seriedade. Senti-me imponente, poderosa.
Na igreja aguardamos ansiosos a chegada da noiva. O noivo não me parecia tão impaciente nem tampouco nervoso. Estava tranquilo. Tinha feito tudo direitinho, seguido à risca todas as orientações, estava se preparando há dias.Não tinha com o que se preocupar. Pensara em todos os detalhes. Tudo lhe parecia perfeito.
A noiva entrou radiante. Sempre era muito sorridente, mas naquele dia os cantos de sua boca se juntavam às orelhas. Seu sorriso estava maior que todos os sorrisos que eu já havia visto. Acho que estava muito feliz.
No meio da cerimonia os noivos se ajoelharam para serem abençoados; isso faz parte do ritual de todo casamento. E lá dos bancos os convidados puderam ver um pequeno detalhe que havia passado despercebido do noivo. Esquecera de tirar a etiqueta dos sapatos.
Eu, de longe, tentava ver o que dizia a etiqueta: se era preço, número, ou outro tipo de identificação. Mas lembro-me perfeitamente que era uma etiqueta branca.
Depois da cerimonia, durante a festa, todos riram muito do esquecimento do noivo e até hoje sempre lembramos do fato. Nunca perguntei ao noivo se fora realmente esquecimento ou alguma simpatia para dar sorte...
O importante é que o casal está junto até hoje há mais de quarenta anos. Vivem felizes e já são até avós. E espero que assim continuem pelo tempo que lhes for permitido. Vamos aguardar a comemoração das Bodas de Ouro para ver a sola dos sapatos do noivo.

07/04/2011             08:30 horas

quarta-feira, 6 de abril de 2011

VESTIDO DE NOIVA

Meu primo ia se casar. Que boa noticia. Iríamos viajar para participar da cerimonia. Iríamos para Belo Horizonte.Fiquei radiante.
Passamos à parte que eu até hoje  adoro, que é a dos preparativos. Planejar, sonhar, pensar  como será a viagem, a expectativa de  chegar a lugar desconhecido. Meu espírito aventureiro entrou em êxtase.
Combinamos tudo, quem iria, como iríamos, quando iríamos. Buscamos roupas, sapatos, adornos,bolsas combinando com vestido, sapato. Tudo organizado com muita antecedencia e com muito cuidado.
Reunimos oito pessoas em dois carros: um Gordini e um Dauphine. A viagem seria longa, por esta razão minha tia preparou um bom lanche para comermos na estrada. Pão com manteiga, sardinha, algumas frutas, refrigerantes, guardanapos e até uma toalha que estendemos no gramado para comermos com mais elegância. Tudo perfeito.
Chegamos na cidade à tardinha e logo fomos procurar um lugar para nos hospedarmos. Como o dinheiro era pouco nos dividimos da única maneira possível: homens em um quarto e mulheres no outro.
À noite fomos deitar pois estávamos cansados da viagem. Eu era a única criança; por isso as mulheres esperavam que eu dormisse para poderem conversar. Eu fingia que dormia para ouvir a conversa delas. Girava em torno de náuseas, enjoos, e tudo que se referia à gravidez de minha tia. Acabava depois dormindo pois a conversa era entediante.
Passeamos, conhecemos alguns lugares diferentes, tudo era novidade. Fomos até ao cinema levados gentilmente pelo noivo que teve a preocupação de nos ciceronear.
Mas viemos aqui para o casamento!! E chegou a hora. Nos quartos homens e mulheres corriam para se arrumar, lembravam que haviam esquecido alguma coisa e tentavam substituir por outra. As mulheres ficaram histéricas, sempre correndo em círculos, preocupadas com os cabelos, as maquiagens, os sapatos novos que estavam apertando os pés. A tia grávida  andara o dia todo e à noite o sapato não lhe cabia mais. Chorou, todos correram e o sapato acabou entrando. O difícil foi tirá-lo quando voltamos. Ele havia grudado no pé de um  jeito que todas as mulheres tiveram que somar esforços para arrancar o sapato sem quebrar o pé.
Corremos para a igreja. Mas era uma capela; até então eu só tinha ido em casamentos em igrejas. Fiquei encantada. Achei lindo. Fiquei muito ansiosa por ver a noiva. Sempre achei que a noiva é a figura mais esperada da festa. O noivo que me perdoe.
Quando a noiva despontou meus olhos se arregalaram. Como estava linda. Vinha vestindo um traje diferente. Não tinha cauda, não era recheado como os que vira até então. Era curto, simples e delicado, ousado pela sutileza de detalhes charmosos e discretos.  Naquele momento, imaginei que era assim que queria me casar. Exatamente assim. Tentei gravar na memória aquele modelo. Tentei gravar todos os detalhes, as roupas, a decoração, a música. Tudo me encantou.
Foi um casamento e tanto. Comemos, bebemos, festejamos e depois fomos novamente para o hotel onde nos hospedávamos para descansar e voltar para casa no dia seguinte.
Novamente as mulheres cochichavam enquanto eu estava acordada. Novamente eu fingia estar dormindo para que elas ficassem à vontade. Novamente eu dormia pois a conversa era a mesma.
Voltamos para casa cheios de novidades, cada um querendo falar mais que o outro, tentando contar com detalhes tudo o que tinha acontecido antes, durante e depois do casamento. Eu falava muito pouco pois não sobrava muito espaço. Também não tinha muito para contar.
De tudo o que mais me encantou foi o vestido da noiva.
Muito tempo depois descobri que seu nome, Sílvia, significava originalidade. Atributo bastante apropriado para a noiva mais elegante que conheci.
Quando me casei tentei me lembrar do modelo, mas o tempo já havia apagado de minha memória muitos detalhes. Mas consegui resgatar alguma coisa. Não fiz a famosa cauda, nem as grandes armações para fazerem o vestido ficar gigantesco. Nem aquele monte de brilho.  Fiz do jeito que lembrei; mas acho que consegui captar uma coisa: às vezes a elegância está na simplicidade. Sílvia havia me mostrado isso. Ela me ensinou sem falar e eu aprendi sem escutar.
Apenas vendo e copiando...

Esse foi o casamento de meus primos João Claudio e Silvia. Que casamento!

06/04/2011                      19:59 horas

terça-feira, 5 de abril de 2011

OUTROS TANTOS

Por mais que tente, nunca conseguiria escrever para todas as pessoas que estiveram presentes em minha vida. Cultivei amigos e sempre procurei dar à eles o melhor que existia em meu coração. Nem sempre foi possível; às vezes nos descuidamos e deixamos passar grandes oportunidades de falar o que pensamos e sentimos. Algumas vezes também perdemos a oportunidade de ficarmos calados.
De um jeito ou de outro, deixamos escapulir por entre os pensamentos e as divagações muita coisa boa que cai no esquecimento e que levamos para a outra vida sem nunca ter falado sobre elas.
Sendo assim, reservei este espaço para falar, ainda que brevemente, sobre algumas pessoas que considero muito. Que respeito e admiro pelo que me proporcionaram. Que foram responsáveis por muitas coisas que vivi e aprendi. No meu coração ocupam um espaço muito grande, porque coração não tem limite, nem dimensão de espaço para sentimentos.

Wanderley Baiochi, meu cunhado que esteve presente no momento em que minha vida estava em risco; sussurrou alguma coisa que bateu tão forte em meu coração que fiquei tranquila como se nada estivesse acontecendo. E estava... É uma das pessoas que mais evoluíram espiritualmente ao longo do tempo. Talvez nunca tenha lhe dito o quanto sou grata por isso e por tantas outras coisas.
Elizabeth Umeki, grande pessoa. Esteve presente em minha vida por um período e de uma relação de trabalho fizemos nascer uma grande amizade. É uma das pessoas mais nobres que conheci.
Sérgio; Serginho; Tosca. Meu cunhado, bom de prosa, bom de encontros descontraídos. Coração que não cabe dentro dele. Um dia entrou pela porta de minha casa com um saco de batatas enorme e por este gesto lhe sou eternamente grata.
Heloisa, minha madrasta! Credo! Sempre nos referimos a ela como "boadrasta". Meus filhos a chamavam de "vodrasta". Fez meu pai recuperar a alegria de viver.
Zeca, querido Zeca, que já me fez rir até da desgraça.
Camila Goduto, minha filha postiça. Companheira de horas de solidão (minha e dela). Companheira de horas agradáveis. Deu-me o primeiro neto postiço.
Camila Luvisoto, companheira também dessas horas...irmãzinha mais nova...agregada...muito querida. Junto dela traz Júlia, também muito querida.Nossos encontros sempre rendem boas risadas, boas conversas e bons porres.

William Luvisoto, grande companheiro que marcou presença em um dos piores momentos da minha vida. Não o vi mas soube que ficou ao lado de meu querido Bob o tempo todo, fazendo com que o tempo passasse mais rápido. Por isso lhe sou eternamente grata.

Clara, querida Clarinha, tão doce. Minha amiga de tempos e tempos. Somos espíritos afins. Somos irmãs de alma. Juntamos o que de mais precioso temos e deu certo.  Somos uma só família. Parece que ela adivinha que lembro dela e me dá uma ligadinha. Fico tão feliz. Sempre me convida para estar com os seus em ocasiões importantes. Juntamos os meus e os dela. Formamos os nossos.

Juceli e Ivani, minhas primas queridas que conviveram comigo na infancia, adolescencia,juventude e até hoje continuam presentes em minha vida.

Mazirdes, minha amiga querida, grande companheira. Descobrimos que somos amigas recentemente. Descobrimos muitas afinidades. Nos entendemos só no olhar. Eu sei o que ela pensa sobre qualquer assunto colocado na roda e ela também sabe do que estou falando. Falamos através do olhar,da cumplicidade, do conhecimentos de tempos atrás, onde ainda nem sabiamos uma da existencia da outra.

Nívea, minha madrinha, minha irmã de fé. Ela me escolheu, apontou para o alto e mandou que alguém  me chamasse. Eu fui. E a partir desse dia nasceu uma grande amizade  que prezo muito.

Dona Ida Rossi, minha sogra! Sogra é uma palavra forte. Entre idas e vindas nos entendemos. Acho que sempre quis dividir o colo dela com Bob. Mas hoje entendo que o filho dela é ele, não eu. Natural seja que ele seja sempre o mais amado. Essa é a lei da vida.

Evanir Izolani, uma das melhores pessoas que conheci até hoje. Nobre, digno, correto, um verdadeiro cavalheiro. Sempre confiou em mim e em Bob. Sempre apostou em mim. A ele sempre renderei homenagens. Se precisasse usar uma única palavra para fazer a ele um elogio não precisaria pensar muito: Ética. Meus agradecimentos e minhas reverências a ele.

Fátima, amiga querida, que um dia disse que gostaria de ter uma mãe como eu. Foi o maior elogio que recebi em toda minha vida. Sempre me atende com um sorriso de coração e de alma. Está se tornando uma ótima profissional. Fico muito orgulhosa dela. Vou considerá-la filha postiça, se assim ela me permitir.

Meus tios Mario e Lili, tão distantes, mas muito, muito queridos. Me abençoaram quando eu e Bob nos unimos para sempre.

Meus tios Toninho e Helda, dos quais tenho ótimas lembranças. Ele me deu uma boneca de louça vestida com uma roupa de veludo vermelha. Meu Deus, como fiquei feliz.

Rubens Cohen, Sr. Rubens, caro Rubens. Embora não tenha contato direto com ele, acompanho a amizade e o respeito que permeiam a relação de trabalho que têm ele e Bob. E assim sendo, tendo ele o apreço que tem por Bob, tem indiretamente por mim e apenas por isso a ele rendo homenagens. Teve um papel de divisor de águas em nossas vidas. Eu, em especial, devo muito do que tenho a ele e por isso sou muito grata.
Luiz Fernando Leme, Lufe, querido Lufe, que passou pela nossa vida rapidamente e deixou boas recordações. Aprendi muito com ele,embora tenhamos tido alguns desentendimentos. Todo mundo tem. Foi, voltou e hoje se faz presente na vida de alguém que me é muito querido. Coisas do destino.

Gersione Lucena, que entre encontros e reecontros se faz presente hoje em minha vida profissional e me dá a impressão de tempos de prosperidade. 

Chico, simplesmente Chico, que sempre me entrega gentilmente um suco de mamão durante as reuniões no CD. Como o faz com muita gentileza o suco de mamão tem um gosto especial. Tão especial quanto seu gesto. Tão especial quanto ele próprio. Pra voce, caro Chico, eu tiro meu chapéu e rendo homenagens. 
Dona Maria Julia, Dona Eunice, Dona Perola Stocco, minhas tres primeiras professoras. Elas me deram de presente os primeiros livros e me ensinaram a gostar da leitura a da escrita. Dona Maria Julia me dizia que um dia eu iria escrever um livro. Se estiver aqui entre nós ainda, espero que goste dessa inciativa que tem raízes lá no passado.
Baba e Dade, meus bisavós. Ela me ensinou a costurar, a bordar. Aprendi a fazer ovos cozidos coloridos na Páscoa. Eu adorava. Ele me ensinou que não devemos acreditar em tudo que vemos. Dizia que era mentira que o homem conseguiu pisar na lua...Era só um truque da televisão
Pompeu, meu querido avô, carinhosamente chamado de vô Péu. Me tratava com tanto mimo e com tanto carinho. Ganhei dele minha primeira sandalia havaiana. E veio com duas tiras de refil. Aprendi com ele a arte do comércio, brincando de vendedora em seu armazém.
Diva, minha avó que não cheguei a conhecer mas soube que esperou ansiosa por minha chegada. Tenho esse nome em sua homenagem. Aprendi com ela que o amor transpõe barreiras de tempo e espaço.
Todos voces me ensinaram muitas coisas. E a todos sou muito grata. E ainda existem muitos que aqui não estão pois a memória anda falhando. É, ainda existem outros tantos.


04/04/2011                 21:13 horas


TARDES DE DOMINGO


Durante toda minha infancia esperava ansiosa pelos fins de semana. Aliás, até hoje espero. Mas nesse tempo gostava especialmente dos domingos. Todos os domingos costumávamos reunir a família em casa de um tio, da bisa ou em nossa casa. Na maior parte das vezes almoçávamos todos juntos. Depois do almoço, as mulheres levantavam e iam para a cozinha lavar a louça e já começar a preparar o café da tarde. Os homens ficavam sentados ao redor da mesa bebendo vinho de São Roque.
E nós, as crianças ficávamos brincando. As brincadeiras daquele tempo eram bastante criativas. Só tínhamos alguns poucos brinquedos e muita criatividade.
Assim que acordava já ficava imaginando tudo o que aconteceria naquele dia tão especial. Meu tio e minha tia iriam chegar com aquele caminhão enorme e de lá iam descer com meus primos e minha prima. Era uma festa. Eu adorava. Minha tia Júlia era minha madrinha. Costuma me levar sempre alguma coisa só para me mimar. Não eram presentes grandiosos, eram pequenas coisas que quando chegavam às minhas mãos tinham um significado gigantesco. Acho que pela doçura do seu gesto; pelo carinho que existia na entrega. A entrega era muito mais importante que o presente.
Falando na minha Tia Júlia, não consigo ter dela senão boas lembranças. Eu me encantava com sua presença. Em aniversários ela e minha mãe passavam dias até fazendo docinhos, bolos e guloseimas para enfeitar a mesa e o coração do aniversariante.
Quando operei a garganta ela me visitou e levou um pote de sorvete enorme. Meus olhos se esbugalharam diante daquilo. Aquele pote era só meu, foi o que ela me disse. Havia sido torturada com aquela anestesia de cheiro, acordara com ânsia e muito mal estar, estava ´péssima; mas passaria por tudo isso de novo só para ganhar um pote de sorvete só meu. Foi maravilhoso.
Outra vez Tia Júlia e minha mãe passaram quase uma noite toda fazendo docinhos para meu aniversário. Os tais estavam dentro de uma bacia enorme, sendo enrolados e embalados um a um. Ficaram lindos. Mas só eu sabia que aquela bacia era uma das que me serviam de banheira algumas vezes. Senti certo enjoo, mas os doces ficaram tão bonitos que nunca contei isso para ninguém, nem para elas.
Um dia ouvi minha avó e minha mãe chorando e falando da minha tia. Não entendi por que choravam. Eu também já ficara doente e ninguém havia chorado por isso. Não dei muita importância.
Com o passar do tempo as visitas de minha tia foram se acabando. Nós é que íamos à sua casa e ela estava sempre deitada. Falava pouco, seu rosto estava pálido, seu corpo diminuído. Continuava sorrindo mas sem forças. Minha avó ficou algum tempo com ela em sua casa para ajudá-la.
Numa manhã acordamos com a notícia de sua partida. Foi a primeira vez que lidei com a perda de um ente querido. E muito querido. Corremos para lá e ao encontrar minha avó queria saber como ficariam meus primos sem mãe. Eu não conseguia imaginar isso. Minha avó me disse que iríamos ajudá-los para que eles pudessem ficar bem.
Eu olhava para minha prima e podia sentir sua dor. Mas não conseguia imaginar essa dor em mim.
Corri para o banheiro e entre uma enxurrada de lágrimas comecei a rezar bastante. Havia aprendido que nos momentos de aflição devemos rezar para receber bênçãos e recuperar a paz. Mas a dor não passava. Não sabia muito bem o que pedir. Não podia pedir que meus pais não morressem pois sabia que a morte era inevitável. Tinha acabado de aprender isso.
Num desvario pedi à Deus, que era a única figura superior que conhecia, que já que temos que morrer, que eu então morrresse primeiro e antes de todos. Só assim  não sofreria. Ato de egoísmo, de desespero. Era a primeira vez que enfrentava a morte. Nunca mais queria passar por isso.
Nos despedimos de minha tia e muitos anos depois passei novamente por tudo isso com a bisa, minha mãe, tios e tantas outras pessoas queridas. Sobrevivi.
Mas cada um que parte deixa um pouco de si e leva um pouco de nós.
Hoje lembrei de meus tios padrinhos tão queridos e senti saudade. Deles e daqueles tempos. Comecei a relembrar as histórias que passamos, algumas divertidas, outras tristes, mas todas muito intensas. Acho que eles merecem um espaço só deles aqui. Não sei se eles, lá de onde estão hoje, podem sentir o que escrevo. Acho que sim. Quero crer que sim. E se assim for devo imaginar que nos reencontraremos.Tomara seja numa bela e ensolarada tarde de domingo.

Essa é para minha madrinha Sra.Evdochia Soloviev Todorov,a  Tia Júlia e para meu padrinho Sr.Ioan Todorov, o Tio João. Se eu tivesse que defini-los com apenas uma palavra acho que seria BONDADE.


05/04/2011                         08:28 horas