A chegada à Roma foi assustadora. Segunda feira, fim de tarde,um calor escaldante. Viajamos desde a manhã,muito cedo e queríamos chegar logo ao hotel para esticar um pouco as pernas.
Assim que o trem parou e descemos, tomamos um susto. Pessoas corriam com malas e pacotes, outras desciam olhando ao redor em busca de uma referencia, o chão forrado de pontas de cigarro, copos de água, papéis.
Estávamos em Roma. Termini. O céu escuro anunciando uma tempestade. Nós ali buscando a saída, Uscita como dizem os italianos, pedindo uma e outra informação, falando vários idiomas juntos e misturados.
Até que após longo e insistente exercício achamos a saída. Mal colocamos os pés na rua a chuva veio. Buscamos um lugar que nos abrigasse até que a chuva parasse e pudéssemos prosseguir até o hotel. Paramos em uma galeria onde várias pessoas também vinham em busca de proteção da água que caía do céu. Ao meu lado um homem moreno, mal vestido, abaixou-se, repentinamente, ajoelhou-se em duração à Meca, eu acho. Ali ficou por algum tempo fazendo suas orações. Acho também que ele pedia que a chuva parasse pois em pouco tempo ela se foi. Deve ter vindo nos dar as boas vindas. Lembrei-me que ouvira falar sempre que quando há uma mudança com chuva é sinal de boa sorte. Esperei que aquele dito popular também servisse para viagens.
Saímos do abrigo improvisado e seguimos pela rua que nos informaram ser a do hotel. Enfim, conseguimos chegar ao local esperado e entramos aliviados e ansiosos por um descanso.
O homem da recepção nos atendeu calorosamente e disse que tinha uma boa noticia. Fiquei preocupada pois, em nosso país quando alguem diz isso numa situação como essa, é uma boa conversa mole para resolver uma situação de conflito.Mas como não tínhamos outra alternativa ouvimos o que o homem tinha a dizer.
Com um tom esfuziante na voz, informou-nos que o hotel que havíamos reservado estava lotado, mas que, por serem uma rede grande nos levariam para outro com mais estrelas, melhor localização e pelo mesmo preço. Estávamos tão cansados que não conseguimos nem discutir e aceitamos a nova condição.
Confesso que fiquei um tanto frustrada pois havia passado dias trabalhando em cima de mapas e traçando rotas para nossos passeios tendo como ponto de partida aquele lugar. Como seria agora? Não tínhamos a menor ideia de onde iriam nos hospedar e como carregamos aquela velha tradição de que a conversa mole serve para resolver situações de conflito e impasses ficamos calados durante o trajeto até o novo hotel. E durante o trajeto,seguimos acreditando que tínhamos "tomado na cabeça".
Quando chegamos ao novo hotel o recepcionista nos atendeu gentilmente e já nos aguardava. Ainda receosos perguntamos várias vezes ao bom homem chamado Franco quanto iriamos pagar, se teríamos direito à utilização da internet, enfim,queríamos saber se realmente tínhamos tido uma boa noticia.
Todas as informações dadas por Franco nos faziam crer que sim, havíamos feito um bom negocio.
O hotel nos pareceu simpático. Fomos para o quarto no segundo andar de um prédio antigo. Entramos no elevador eu, Bob e três malas. Era a capacidade máxima, acho até que ultrapassamos.
A escada toda em madeira, carpete vermelho no chão, papel de parede decorado atentando para um estilo neo clássico. A casa deve um dia ter sido habitada por reis e rainhas, príncipes e donzelas e hoje lá estávamos nós.
Entramos no quarto e corri abrir a janela para tomar um pouco de ar. A rua era um tanto barulhenta, mas tinha algo de encantador. refeitos do impacto da chegada começamos a olhar o que de belo podíamos encontrar.
Começamos a fazer um exercício para saber exatamente onde estávamos. Avistamos a Fontana de Trevi,o Monumento Vitorio Emmanuelle e assim fomos aos poucos retomando nosso sentido. Percebemos, enfim, que estávamos em Roma
Ajeitamos as malas e tomamos um banho para nos refrescarmos. Bob tirou todas as roupas da mala ajeitando-as em gavetas. Eu apenas coloquei minha mala sobre uma cadeira sem tirar nada de dentro. Detesto ter que arrumar e desarrumar malas. Tenho um lado extremamente pragmático que me envolve sempre que saio à passeio.Quero reservar o maior tempo possível para aventurar-me e esperar pelo inusitado.
Depois de refeitos do cansaço da viagem, do choque ao chegarmos em Termini,do susto que provocara a mudança de planos sobre nossa hospedagem, resolvemos andar pelos arredores para conhecer o lugar onde passaríamos os próximos três dias.
Já era noite e antes de sairmos procuramos nos informar sobre a segurança do local. Todos nos diziam que podíamos sair à vontade, pois ali era um lugar tranquilo. Toda Roma era tranquila e sossegada, assim nos diziam.
Seguimos pela rua do hotel, atravessamos uma espécie de túnel que nos levaria à algum lugar interessante, pois haviam muitas pessoas indo e voltando Seguimos apenas alguns metros e o som de agua caindo começou a ninar meus ouvidos.
De repente chegamos à um lugar maravilhoso, onde milhares de pessoas, assim como nós, olhavam embasbacadas aquele espetáculo da natureza modificado pelo homem com muita sensibilidade, dando assim ao lugar uma caracteristica de maravilha do mundo.
Era Trevi. Fontana de Trevi. Estávamos lá. Lembrei, por segundos, de um filme onde Sophia Loren recebia uma declaração de amor ali, em pé em um dos degraus de Trevi. Nunca me esqueci, pois achei a cena emocionante. Abri novamente os olhos e estava agora eu, tantos anos depois, no mesmo lugar. Agora era eu a protagonista.
Ao redor milhares de pessoas de vários países do mundo se encantavam com a beleza indiscutivel. Os anjos, durante o dia rondam as bibliotecas e à noite com certeza, vão até Trevi e lá ficam sobrevoando, brincando nas aguas, cantando e dançando ao som mágico das aguas que vão e vem.
A beleza do local é indescritível. Cada detalhe do mármore entalhado, a grandiosidade do monumento. Tudo perfeito. As pessoas de todos os lugares do mundo se encontram ali, se entreolham, sorriem; parece que conversei telepaticamente com varias pessoas. Algumas nos cumprimentavam com um sorriso, às vezes com um balançar de cabeça e correspondiamos com a classe e a elegância que o lugar merece. Porém, com informalidade. Todos ali pareciam muito felizes. Todos ali pareciam estar tão maravilhados como eu e Bob.
Claro que tivemos que cumprir o ritual e jogar uma moeda pedindo para voltar. Pedi com muita força, pois quero muito voltar à Trevi. Bob também, talvez mais que eu,pois lançou às claras águas a maior moeda que tinha no bolso.
Começamos então a explorar os arredores da Fonte. Muita musica, bares e pizzarias com mesas na rua, pessoas comendo pizza e bebendo vinho ou cerveja. Muitas lojas ao redor vendendo todo tipo de souvenires que nos deixou atordoados. Eu queria ver tudo, sentar em todas as cantinas, curtir a vida boemia que só Roma pode mostrar. Os italianos são bastante acolhedores e nos convidam a sentar. Tivemos vontade de aceitar todos os convites.
Algumas cantinas atendem à luz de velas. Em cada mesa um delicado pote com uma vela acesa e um pequeno vaso de flores. Ao fundo um cantante tocando um violão ou uma sanfona. E as pessoas comendo à luz de velas e ao som de uma boa e bela musica italiana.
As ruas ao redor de Trevi são muito estreitas, parece não dar para passar mais que três pessoas juntas uma ao lado da outra. Mas de repente, surge em meio aquela multidão um carro que passa por um espaço inacreditavel. Tudo isso faz parte da magia da Fonte. A Fonte consegue fazer coisas que cabe aos anjos dimensionar e permitir.
Sentamos em uma dessas cantinas e comemos a especialidade do local: uma bela pizza. Enorme. Mas como a massa é muito fina e a fome grande comemos sem grandes esforços. Acho que só na Itália é possível comer uma pizza desse tamanho.
Andamos mais um pouco para ver uma das lojas chamadas "Enoteca". Vendem macarrão, vinhos, licores. Tudo com uma beleza inigualável. As embalagens delicadas, enfeitadas com muito bom gosto; vinhos e licores de todas as cores e sabores. Biscoitos empacotados em papel de fino trato, sempre finalizados com um laço de bela fita a dar o acabamento.
Já era tarde da noite e Trevi continuava com uma multidão de pessoas. As cantinas continuavam cheias. Percebi que Roma é, realmente, uma cidade que não dorme.
Mas nós precisávamos dormir e voltamos para o hotel. Tínhamos percebido que o recepcionista do hotel havia falado a verdade. Estávamos alojados no melhor local de Roma. Podíamos visitar quase todos os locais à pé.
Roma realmente é linda!
ResponderExcluirLendo seu texto fui revivendo uma viagem recente.
Vc descreveu muito bem aquele pedacinho encantado de Roma. Senti-me de novo por lá.
Pretendo voltar também Diva, tanto que fui 4 vezes até a fonte e joguei muitas moedas para garantir.
Coincidencia amiga, também fui lá 4 vezes e todas as vezes senti uma emoção diferente. Cada pedacinho dali parece encantado. E os anjos, esses eu não vi mas senti. Bora pra Roma?
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