quinta-feira, 19 de abril de 2012

EU VIVI BEATLES

Anos 60. Cenário politico agitado. Em meio a boatos revolucionários as estações de rádio da época começam a tocar uma música: Help. Todos faziam um breve intervalo para ouvir e em pouco tempo começavam a balançar o corpo seguindo o ritmo "alucinante". Comecei a perguntar pra um e outro, a prestar atenção na letra, para saber quem eram aqueles rapazes que de repente mexiam com meu coração e meu corpo. Beatles, The Beatles. Uma banda inglesa que surgiu arrebentando tudo, e rapidamente tornou-se a maior banda de todos os tempos.
Eu ainda era criança nesse tempo, mas logo que comecei a entrar para a adolescencia ouvia Beatles e ficava apaixonada. Meu primeiro amor foi Paul McCartney. Como era lindo. Acho que não´só meu, mas de todas as garotinhas daquela época. Cantarolava junto ao lado da vitrola todos os sucessos lançados pela banda.No Natal de 65 pedi de presente um compacto duplo (alguem se lembra?), pois LPs eram muito caros. Com as 4 musicas, entre elas Help, eu dancei por muito tempo.
Gostava de me produzir para imitar uma tiete da banda. As condições eram pouco favoráveis, ainda não tinha idade para ter minha própria maquiagem, então tinha que driblar os olhos controladores dos adultos para pegar um batom, um rouge e me produzir. Mas como era bom.
Aqui no Brasil a Jovem Guarda estava no seu auge e eu me dividia entre Roberto Carlos, The Beatles, Erasmo Carlos, Wanderleia. Roberto Carlos com seu sucesso "Calhambeque", também me fez delirar. Ronnie Von, o príncipe, foi também uma de minhas paixões. Meu coração balançava entre Paul e Ronnie. Ora estava na Inglaterra pulando ao som de Help, ora estava na Rede Record cantando A Praça ao lado de Ronnie.
As baladas eram diferentes das que vejo hoje. Geralmente íamos na casa de amigos aos domingos e fazíamos um bailinho na garagem. Eu adorava. Alguém ficava encarregado de fazer efeitos visuais acendendo e apagando as luzes. Os rapazes sondavam rapidamente as garotas e depois de algum tempo elegiam uma para dançar. Dançar de rosto colado. Isso era quase um namoro. Dali para um compromisso era um passo. Quando alguém me tirava para dançar "Yesterday"meu coração disparava. De rostos colados, quase sem falar, apenas ouvindo a respiração do outro. Quando a musica acabava a respiração curta dava lugar a um  breve suspiro.
Já beirando 15 ou 16 anos as maquiagens liberadas, claro com algumas reticencias, mas já tinha um batom discreto, meu próprio rouge, clarinho, só para dar um efeito. Tinha já um sapato com saltos, também discretos, pois a idade não permitia nada além de 5 cm.Mas era um salto e isso me bastava. E, acreditem, já podia usar meias finas. Esse era um grande sonho.Agora sim, já podia cantar Beatles, Roberto, Erasmo, Wanderleia e Ronnie vestida como uma verdadeira tiete. Já tinha até um LP o que me permitia ouvir mais musicas sem ter que levantar a todo instante para trocar o disco.
Meus interesses musicais também se lançaram para um horizonte maior. Já era tiete da Bossa Nova e da Tropicália. Meu universo musical se ampliava e Chico agora fazia meu coração bater forte. Gil, Caetano, Gal, Bethania!!!! Minha cabeça dava voltas de tanta emoção. Estilos diferentes, cada musica tinha sua hora certa. Lembrava-me dos festivais, ainda na época em que maquiagens não me eram permitidas. Lembrava-me de Jair Rodrigues, do violão quebrado no palco, de Chico ainda garoto chegando pra se eternizar. Tudo isso agora era um universo único, e nesse universo eu era a tiete principal.
Crescendo mais um pouco, agora já completando a maioridade, aí sim, já tinha minhas maquiagens, meus sapatos de salto, meus perfumes, já tinha autonomia. Já podia dirigir e teria tido grande alegria em dirigir o calhambeque do Roberto. Planejei isso na adolescencia mas meus planos não deram certo. A única coisa diferente que pude dirigir foi uma Rural Willys que meu pai gentilmente me permitiu para matar a vontade.Beatles, Bossa Nova, Tropicalia e Jovem Guarda cresceram comigo. Com o passar do tempo, alguns de meus cantores se foram, a banda se dissolveu, eu amadureci, mas continuei uma tiete.
O tempo passou rapidamente, os anos implacavelmente chegaram e hoje todas essas lembranças me fazem muito bem. The Beatles fez parte da minha infância, da  minha juventude e para mim a banda nunca se dissolveu. Junto com os Beatles tenho na memória lembranças de anos dourados, de tempos onde o ideal estava presente em gestos, em falas, em escritos e, claro, em músicas. Cada musica carregava consigo um ideal, fosse qual fosse. Dancei e cantei Beatles.  Sorri e chorei Beatles.
Posso dizer sim, EU VIVI BEATLES.

2 comentários:

  1. Gostava demais tbm dos Beatles mas só pude curtí-los de longe e às escondidas de meu pai, assim como aos programas das "belas tardes de domingo" da Jovem Guarda. Mesmo assim trago lembranças lindas de momentos vividos ao som desse pessoal todo. Seu texto me trouxe boas lembranças.

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  2. Ah, essa semana ando correndo de um lado pro outro entre o passado e o presente. Boas lembranças, tempos bons, ingenuos, inocentes. E ainda ao som de uma musica.....bom demais da conta.

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