terça-feira, 28 de setembro de 2010

FLORES PARA MINHA MÃE

Há muito tempo atrás, ao voltar da escola, vi um jardim com flores lindas.Não tive dúvida, arranquei uma delas, com delicadeza, mas tirei-a do seu chão. Pensei em dá-la à minha mãe. Achei que ela gostaria. E lá fui eu cheia de razão, com a flor na mão.
Quando vi minha mãe envolta em seus afazeres, estendi a mão com a flor, mas não disse nada. Ela também não.
Algum tempo depois, na minha formatura de primário, recebi meu diploma com louvor. Fui a 1ª colocada da escola. Nem eu sabia que assim seria. Mas claro que fiquei muito orgulhosa. Mais uma vez, fui para casa exibir meu troféu, que devia naquele momento significar a flor de tempos atrás. Como sempre, cheguei, estendi a mão com o diploma e não disse nada. Nem eu nem ninguém. Não houve muito barulho, não era talvez muito importante (não sei se eu ou o diploma).
Passei algum tempo sem pensar mais em flores, até que fui amadurecendo e entendendo as dificuldades de cada um. Passei a perceber que minha mãe era muito sofrida e não havia aprendido a lidar muito bem com sentimentos. Tivera uma infância sofrida.
Minha mãe resolveu estudar e se formou. Na sua formatura lá estava eu, agora adolescente, parada na frente dela sem saber o que dizer. Não me recordo se tinha alguma coisa na mão para lhe dar. Me perguntou ela se não ia lhe dar um beijo. Fui até ela mas não consegui beijá-la, apenas a abracei. Acho que também não havia aprendido a lidar com sentimentos.
Mais algum tempo depois minha mãe adoeceu; ela ainda era muito jovem e eu já era adulta. Vivemos nesse período encontros marcantes. Ficava com ela durante a madrugada assistindo algum filme para o tempo passar mais rápido. Às vezes, ao voltar da faculdade trazia chocolates para ela; ela adorava chocolates. Passei a pentear os cabelos dela; ela era muito vaidosa. Mas mesmo diante disso tudo, nunca nos envolvemos num abraço. Descobri que nós duas não tínhamos aprendido a falar e lidar com sentimentos.
Um único beijo eu lhe dei e foi muito bom, e ela deve ter gostado muito. Era uma ensolarada manhã de setembro.Guardo essa lembrança até hoje e penso que foi um pecado não termos nos reconhecido antes.
Nessa mesma manhã, ensolarada e bonita, comprei flores para minha mãe. Rosas vermelhas eu acho. Várias.
Como sempre minha mãe não disse nada. Dessa vez sequer olhou para mim.
Depositei as flores ao redor do seu corpo antes que o caixão se fechasse e como sempre saí de mansinho.
Até hoje cuido de minha mãe, sempre tem flores lá onde ela está. E fico pensando que um dia tirei do chão uma flor em nome de um sentimento que nunca teve vazão, enquanto havia tempo.

28/9/2010   -   08:00 horas

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