quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PAI HERÓI

Meu pai foi meu herói. Nem sei explicar que tipo de herói. Mas foi. Às avessas eu acho. Sim, porque meu pai não era o tipo de pai exemplo. Tinha tantos defeitos, coitado.  Era rude, insensível (se mostrava assim) e sempre me dizia coisas que nem de longe transmitiam algum afeto. Provavelmente não tinha cultivado esse hábito em sua família. Perdeu a mãe muito cedo, teve que sair de casa e buscar seus horizontes. Não tenho nenhuma recordação de infância que possa denotar algum tipo de afeto entre nós. Ele era insensível, pelo menos demonstrava isso.
Cresci ouvindo meu pai dizer que chorar era errado, era um sinal de fraqueza. Sempre exigiu de nós uma frieza que nos fazia sofrer. Mas dizia ele que demonstrar o que sentimos era também um sinal de fraqueza.
Fui crescendo assim, buscando na frieza o esconderijo para minhas fraquezas. Não sei se em algum momento concordei com essa teoria. Mas assim aprendi como sendo o correto.
Com o passar dos anos, a adolescência me trouxe alguns questionamentos acerca de sentimentos, fraquezas, etc. Nunca me conformei com essa teoria. Achava não ser possível alguém passar a vida toda sem chorar, sem sentir. Mas adotei como sendo essa  a forma mais correta de se viver. Pensava como seria quando tivesse filhos e tivesse que dizer a eles que chorar é sinal de fraqueza. Eu sentia vontade de chorar. Às vezes até me fazia bem. Mas nunca pude externar isso.Nem quando sentia dor. Nem quando sentia tristeza. Para chorar havia que se ter uma justificativa muito forte; mesmo assim sempre existiam restrições.
Às vezes, também ao olhar para meu pai achava que de seus olhos poderiam estar caindo algumas lágrimas. Mas nem ousava perguntar, pois a resposta certamente seria negativa.  Mas ouso dizer que por vezes vi meu pai com vontade de chorar. Só com vontade.
Quando perdemos minha mãe, ainda éramos muito jovens, eu meu pai, meus irmãos e minha mãe. Ficamos todos muito tristes. Choramos por obrigação e com medo eu acho, porque já tínhamos gravado na memória que chorar era sinal de fraqueza. Lembro bem que chorei o choro dos justos, como nunca havia tido oportunidade. Lavei a alma. Enfim, tinha um motivo justo e politicamente correto pra chorar.
Algum tempo depois meu pai também teve seus sinais de partida. Ainda era jovem e ainda era implacável nas suas questões sentimentais. O chorar ainda era um sinal de fraqueza; o sentir acho que também era. Mas já eu não me importava tanto com  isso. Já estava adulta, crescida, e do meu jeito, tinha aprendido a contestar essas teorias paternas. Tinha meu jeito próprio de lidar com meus sentimentos.
Tentei bravamente mostrar que amava meu pai e achei que devia mostrar isso a ele. Não sei se consegui. O tempo já tinha corrompido meus sentimentos e os dele também. Mas conseguimos do nosso jeito, do jeito que podíamos naquele momento,trocar alguns pequenos afetos; trocamos experiências afetivas que guardo até hoje na memória. Sua provável partida nos aproximou.
Queria tanto que ele vivesse um pouco mais para podermos resgatar os sentimentos perdidos no tempo da desesperança e do pouco conhecimento; quis muito ter a oportunidade de desafiar os desmandos de meu pai me dizendo que não podíamos demonstrar nossos sentimentos; pedi a alguém que não sei bem quem era que me desse a oportunidade de poder viver com meu pai momentos de puro afeto que a vida me roubara de vivê-los com minha mãe.
Mas acho que já era tarde. O tempo passou e a hora da partida de meu pai já estava marcada. Não adiantavam meus lamentos, orações, queixas, nem sequer arrependimentos dos momentos que deixamos escapar por mera distração. O acaso não nos protegeu quando nos distraímos. Num piscar de olhos, meu pai disse adeus e eu lhe respondi. Não choramos. Mas naquele momento, talvez o mais marcante de nossas vidas, trocamos uma energia que um único nome pode ter: Amor.
Meu pai, que outras vidas realmente existam para que possamos nos reencontrar e viver o enorme amor que nos foi roubado não sei quando e não sei porquê.

Para meu pai, que tanto amei mas que por seu descuido nunca pude demonstrar.

29/09/2010  -   22:36

Um comentário:

  1. O pai herói... engraçado o título! Adorei o texto e realmente o nosso pai era tudo isso... também não o vi chorar, e nem com vontade! Mas tenho a plena certeza de seu amor por cada um e nós! De seu modo estranho de demonstrar, ele nos amava! Para cada um, um tratamento diferente que ele julgava mais apropriado, acredito que para você, a forma mais rude mesmo, para poder carregar nas costas a familia, caso eles faltassem... e eles realmente faltaram! Nunca me reprimiu por chorar, mas também poucas vezes me lembro de chorar! Acho que isso aprendemos por observar e creio que aprendi que devemos ter reais motivos para chorar! Também não sei até que ponto concordo com essa teoria, mas o fato é que funcionou! Somos pessoas fortes, pessoas maduras, que sabem segurar qualquer bronca e lidar com qualquer tipo de situação! Valeu...
    O meu tempo com ele foi ainda mais passageiro. Não percebi sua presença e por muito tempo não senti a sua ausencia, mas hoje, depois que eu realmente cresci, vejo a falta que ele faz, a falta que me faz o seu silêncio, a falta que me faz o seu exemplo, as conversas sem muitas palavras, o afeto sem carinho, a preocupação sem desespero, a inteligencia sem arrogancia a existencia como um todo. Mas o tempo passou, as pessoas passaram e ficamos nós! E continuamos seguindo os seus mandamentos, até sem perceber! Fico feliz com isso! Beijos e parabéns pelos textos! estarei mais presente!
    Bjocas

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