sábado, 19 de março de 2011

BANQUETE DE CACHORRO

O marido havia chegado tarde, muito tarde. E provavelmente não havia dado à esposa explicações que justificassem sua demora. E, a partir daí iniciou-se uma longa e intensa discussão.
Começaram discutindo o presente, fatos que aconteceram recentemente, coisas do tipo roupa sempre limpa, casa sempre arrumada, crianças sempre com os deveres de casa em dia. Ele por sua vez se defendia dizendo ser sempre um ´pai preocupado em manter a casa sempre farta, as crianças em boas escolas, bom convénio médico. E, ainda por cima, ser pai e marido carinhoso.
Por outro lado, ela negava tudo o que ele falava em causa própria e ele também da mesma forma agia.
Engraçado que em toda discussão, a coisa mais comum é cada um enaltecer as próprias qualidades e tripudiar sobre os defeitos do outro.
E assim a discussão continuou, passando então os dois a revirar o passado e de lá tirar todas as coisas que cada um havia feito para o outro; só as boas, é claro. O outro, para se defender ou se justificar, negava ou colocava alguma reticencia nas colocações que vinham do fundo da alma. Reviveram a fase do namoro, do noivado, do casamento, da espera pelos filhos. Ele dizendo que sempre esteve presente, ela dizendo que ele sempre estivera ausente. Ela dizendo que sempre fora abandonada e ele dizendo que deixou de fazer muitas coisas que gostava para estar ao lado dela.
Vez ou outra as crianças acordavam e pediam a eles que parassem de falar alto; eles se desculpavam, mas rapidinho recomeçavam a baixaria.
Ela disse então que havia feito naquele dia seu prato preferido: peixe com molho de camarão!!! Não o avisara pois queria fazer surpresa. Nesse momento não consegui me manter imparcial como vinha fazendo até então e senti certa vontade que ela fosse a vencedora da batalha que ali havia se travado.
Houve um breve silencio e então a ouvi dizer a ele que o melhor a fazer era comerem e encerrarem aquela discussão que não tinha ponto de chegada certo. Ele, muito sem graça e sem jeito lhe responde que não precisava se incomodar, pois já havia comido uma bobagem e portanto estava sem fome.
A mulher lentamente se dirigiu ao fogão, empunhou a panela em suas mão, abriu a janela e de lá atirou-a com peixe, camarão e molho.
Depois, enfim, o silencio tomou conta do lugar e fomos todos dormir.
No dia seguinte, logo que acordei, corri para a janela para ver o que tinha acontecido. Do peixe nada mais restava. Acho que havia virado banquete de cachorro. Mas a panela, essa estava lá, em forma oval, achatada. Nela, nunca mais conseguiria ninguém preparar um peixe ao molho de camarão.
Soube depois que esse incidente não havia interferido muito na vida do casal, que continuou vivendo junto. Mas passei a ouvir o homem chegar em casa todos os dias no mesmo horário......antes do anoitecer.


19/03/2011                                                 19:48 horas

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