sábado, 19 de março de 2011

BELEZA

Era fim de tarde. Depois de um longo e estafante dia de trabalho fui para o ponto esperar o ônibus que me levaria para casa para descansar, repousar e permanecer pelo menos algumas horas sem pensar em nada. Sentei-me em um banco onde haviam dois rapazes bastante jovens conversando. Não pude deixar de ouvir a conversa, que tentarei relatar mais ou menos aqui:
-E aí mano, tudo em cima?
-Beleza.
-E sua véia tá de boa?
-Beleza.
-E aquele baguio, cê resolveu?
-Beleza.
-OH brother, bom te vê, cê vai tá na vibe sabadão?
-Beleza
-Falou, então a gente se cruza lá. Mermão, bom fala contigo, tava deprê, e esse papo levantou minha moral.
-Beleza.
Fiquei por alguns instantes literalmente em choque. Havia estudado tantos anos para poder entender mais ou menos o comportamento humano. Passava dias, noites até debruçada em cima de livros, percorrendo páginas escritas por Freud, Reich, Yung. Lembrei-me de Freud quando havia conseguido resolver um trauma da mulher dos ratos em apenas uma sessão. Mas teve que ouvir e falar, fazer algumas intervenções quando necessário. E foi depois de muito estudo, muito preparo. E foi Freud!!!!!. Mas esse rapaz em cinco minutos, dizendo apenas uma palavra repetida sem nenhuma emoção, conseguiu levantar a auto estima do amigo.
Cheguei em casa e resolvi usar essa palavra por algum tempo para ver que resultado obteria. Meu filho me perguntou se poderia pegar meu cartão de crédito para comprar uma coisa que precisava. Lancei mão da palavra mágica e ele saiu satisfeito. A empregada me perguntou se podia utilizar no chão um tal produto que nem sabia eu para que servia. De novo a palavra mágica. Meu marido me pediu para trazer alguns amigos no domingo para assistir ao futebol. Beleza era só o que eu dizia.E todos me abraçavam, sorriam e me acarinhavam. Pensei, será que descobri o grande segredo do viver bem?
Na semana seguinte os resultados da minha tentativa de apostar no poder da palavra ouvida começaram a aparecer. Minha fatura de cartão de crédito chegou, e nela haviam gastos em MC Donalds, lojas de games, etc. Minha empregada utilizou o tal produto que deixou o chão tão liso que diante do susto da fatura do cartão, escorreguei e quebrei uma perna. Os amigos de meu marido vieram no fim de semana para assistir ao futebol e aproveitaram para almoçar, tomar café da tarde, jantar e ainda levaram restos de guloseimas para suas casas. A casa ficou revirada do avesso.
Ganhei uma perna quebrada, uma casa revirada e uma conta gigantesca. Relatando o caso desde seu inicio para meu marido ele, indignado me disse: QUE BELEZA HEIN!!!! E eu, para não perder o bom humor que até então era a única coisa que me mantinha ainda viva respondi simplesmente: BELEZA.

19/03/2011                                         20:30 horas

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