quinta-feira, 17 de março de 2011

CADÊ O CHAPEUZINHO VERMELHO?

A família morava no Brasil, mas tinha parentes na Itália. Ainda cultivavam alguns hábitos que trouxeram de lá quando partiram. Lá onde moravam plantavam trigo, temperos, ainda faziam o pão em casa com a farinha produzida pelo trigo que plantavam. A parte da família que se bandeou para cá trouxe consigo esses hábitos e deles nunca abriu mão. Continuavam a fazer o pão todos os dias, arrumavam a mesa farta para os cafés de meio de tarde. Nela sempre colocavam aquelas coisas gostosas que bem conhecemos; o velho bolo de fubá, a goiabada produzida com goiabas do próprio quintal, o queijo branco feito com leite de vaca retirado do sítio vizinho, sem nenhum processo de pasteurização. Mas como era bom e gostoso!! A manteiga seguia o mesmo processo caseiro e por esta razão tinha um gosto especial. O café com leite também obedecia a esses mesmos critérios.
Mas o pão, esse era especial. Sempre que possível faziam com a farinha recebida pelas tias que ainda moravam na Itália e produziam a tal. Achavam que dessa forma conseguiam matar a saudade que tinham de seu país de origem e dos que lá ficaram. E assim, todos os meses recebiam pelo correio um pouco de farinha. Não podiam as tias enviar grandes quantidades pois o envio ficava muito caro.Era mesmo só para matar a saudade.
Um belo dia, ao receberem o pacote através do correio, sentiram que a farinha estava diferente, talvez um pouco escura. Acharam que essa safra do trigo devia ter sofrido alguma alteração genética, ou talvez, fosse uma nova fórmula, mais gostosa talvez. Até a quantidade parecia menor. A embalagem também estava diferente das costumeiras. Mas, enfim, vamos colocar as mãos à obra.
Lá foram ao preparo do pão e continuaram a achar que a farinha  dessa vez estava tão estranha que nem dava liga. Tiveram então que utilizar um pouco da farinha que compravam no supermercado para poder dar ao pão o ponto de massa assável. Aproveitaram para colocar um pouco de linguiça, algumas rodelas de cebola, cobrí-lo com rodelas de tomate e eis que surge um típico pão italiano iguais aqueles que vez em quando se comia lá na terra distante.
Nesse dia, por terem caprichado no pão, capricharam também nos outros pratos, dando ao bolo de fubá uma cobertura colorida que só em dias de festa era permitido. Sentaram á mesa e comeram até se fartar. O pão estava maravilhoso e recebeu elogio de todos. Foi o destaque do famoso café da tarde. Houve alguém que até ousou levar um pedacinho que sobrara para comer à noite caso tivesse fome.
Dias depois, recebe a família uma carta informando que a avó havia morrido e, seguindo o seu desejo expresso em vida fora cremada. Ao final da carta os dizeres: Seguem as cinzas de vovó para serem espalhadas no quintal.
Por uma distração do destino e um descuido dos correios, a carta que deve ter vindo junto com a caixa deve ter se extraviado e por essa razão, foi entregue dias depois.
É, acreditem, eles comeram a vovó!!!
Mais alguns dias depois, esse amigo que me relatou o fato, encontrou com um dos netos da vovó e perguntou se estava tudo bem. Ouviu a seguinte resposta; "Tudo bem nada, comemos a vovó no café da tarde".
Ao ouvir a história não me contive e pensei que tinha todos os ingredientes para ser um belo conto infantil; tinha a vovó, tinha o lobo mau que comeu a vovó, mas cadê o Chapeuzinho Vermelho?
Acreditem, essa história é verídica e aconteceu numa cidade aqui próxima. Quem me relatou essa história pode confirmar.


18/03/2011                           08:26 HORAS

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