Meus olhos queriam se abrir, mas estavam fracos. Minha mente estava confusa. Ouvia um fundo de vozes misturadas com gemidos, não conseguia distinguir o que falavam. Queria mexer os dedos para, numa tentativa desesperada, me comunicar, mostrar que estava reagindo. Não sabia exatamente a que, mas sentia que estava reagindo. Tentava reconhecer alguma voz que me fosse familiar, mas em vão. Me sentia perdida, sem saber onde estava. Lembrava-me vagamente de sentir fortes dores, que agora haviam acabado. O que isso significaria? Por que não sentia mais dores? Por que não conseguia abrir os olhos? Por que não conseguia fazer um movimento sequer?
Algum tempo se passou, não sei exatamente quanto, até que consegui abrir os olhos lentamente e pude ver uma pessoa a meu lado. Tentava lembrar quem poderia ser, tinha um rosto que me parecia familiar. Claro, era um médico; havia visto sua fisionomia, ouvira sua voz quando me dizia que iria tentar salvar minha vida. Então, eu havia sobrevivido. Todo o resto que vivera tinha sido apenas um sonho. Estava de volta. Não conseguia saber se estava feliz ou não. Estava muito confusa. Queria perguntar sobre meus filhos, meu marido, meus irmãos, mas não tinha forças.
Entre momentos de delírio e lucidez fiquei divagando por algumas horas, dias, nem sei exatamente. Até que de repente ouço uma voz familiar, alguém que conheço, e que me chama pelo meu nome com muita familiaridade. Vi meu marido, meu filho, minha irmã, todos falaram comigo. Senti enfim, que sobrevivera à tempestade que se instalara em minha vida sem aviso prévio.
Ficava esperando ansiosa aquele momento em que receberia a visita de pessoas que conhecia e que vinham me mimar um pouco. Estava precisando muito disso. Sempre chorava quando elas iam embora, queria pedir que ficassem, me sentia abandonada, tinha medo de algo que nem sabia explicar. Sentia vontade de apertar as mãos dos meus e não deixá-los ir embora. Esses momentos eram tão rápidos , mas tão intensos. Sempre me emocionava, mas deixava para chorar só quando iam embora, não queria preocupá-los. Eu os amava. Senti naqueles momentos o verdadeiro sentido do amor
Aos poucos fui me recuperando, recuperando meus movimentos, voltando lentamente a andar, a conversar sem muito esforço. Mas demorei demais para recuperar a vontade de viver, a energia que era minha companheira inseparável, a alegria que era quase minha marca registrada.
O tempo passou e aos poucos fui me recuperando. Nunca soube que marcas ficaram no meu corpo e que serão determinantes para encurtar meu tempo nesse plano. Isso me preocupa só às vezes. Mas sei que as marcas que ficaram em minha alma são profundas e até hoje me fazem sofrer ao relembrar aqueles momentos.
Lembro-me dos rostos que estiveram me olhando, sorrindo para mim e me reconfortando enquanto ali estava imóvel. Não sabem como me fizeram bem. Essas presenças me marcaram profundamente e foi isso que me deu forças para querer continuar aqui. Senti que era importante, que essas pessoas iam até mim para me resgatar, pois, obviamente me amavam. Lembro-me de cada palavra que me disseram, sinto até agora o doce gosto de seus beijos em meu rosto sofrido, sinto o calor de suas mãos segurando as minhas que estavam frias e sem força. Sinto a energia que me passavam para que eu me recuperasse rapidamente. Sinto o amor que me passavam e me dava tanta força.
Lembro-me também dos rostos que ali não estiveram; sempre esperava por eles e eles não vieram. Tinham seus afazeres, tinham seus motivos, tinham suas desculpas.... talvez eu não fosse assim tão importante quanto imaginava ser. Se eu tivesse morrido, talvez tivessem vindo. É de praxe...!!!!
25/03/2011 22:17 horas
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