Tenho amigos. Amigos de ontem, amigos de hoje, amigos amanhã...terei? Pouco importa. Amigos de ontem serão sempre amigos, por mais distantes que estejam. Lembro com carinho de muitos desses amigos que se fizeram presente em minha vida nos melhores e piores momentos. Me pego às vezes relembrando de alguns que, em especial, por alguma razão qualquer marcaram presença. Lembro-me de uma ocasião em que a dor tomava conta de minha alma me fazendo sofrer demais. Havia eu acabado de perder minha mãe e me sentia também perdida, sofrendo essa dor comum em um momento como esse. Olhava a meu redor buscando alguma explicação para o que acabara de acontecer. E, claro, não encontrava. Agradecia a cada presença e a cada palavra de consolo que recebia mas a dor não passava. As horas passavam lentamente, e, paradoxalmente, parecia que o momento final se aproximava muito rápido.
Havia um sol forte, cheio de energia,mas não conseguia sugar essa energia por mais que me esforçasse. A noite chegou silenciosa, misteriosa, escura; me parecia mais triste que o decorrer do dia. Me senti pior, mais perdida, mais triste ainda. As pessoas se afastaram, se recolheram, poucos apenas ali ficaram tentando consolar a mim e a meus irmãos, que como eu, também buscavam explicações. Em vão. Parece que fazia um pouco de frio, não sei se real, ou se era um frio de alma.
Era muito tarde já, quando alguém chegou e nos convidou a dar uma volta para recuperar talvez as energias que já estavam se rareando. Ao ver a mão estendida aceitei a ajuda e me rendi ao chamado do amigo que socorre. Lá fomos nós, sem rumo, nos deixando guiar pela mão que nos guiava sem perguntas, sem cobranças; apenas nos deixando levar pela doçura do coração amigo.
Levou-nos esse amigo à sua casa e, com muito carinho, nos ofereceu algo para comer. Pobre coitado, estava tentando a todo custo nos tirar um pouco do peso que se deixava abater em nossas costas naquele momento. A mesa estava farta, com muitas coisas que gentilmente colocara ele para nos mimar. Não sei se comi alguma coisa, não me recordo. Mas me lembro do café com leite quente, que logo no primeiro gole, me aliviou. Era como se algo dentro de mim se tornasse mais quente, menos doloroso. Senti um certo alívio, era como se me renovasse. Olhava ao redor e nada do que vi me marcou. Mas o café com leite ficou em minha memória para sempre.
Tempos depois, muito tempo depois, esse meu amigo teve também seus problemas, seus sinais de fraqueza, de comprometimento. Soube por amigos que sua situação não era nada boa. Senti uma necessidade de lhe retribuir aquele carinho de tempos atrás. Queria lhe oferecer uma café com leite quentinho para tentar lhe aliviar a dor. Fiz como pude, do jeito que consegui, indiretamente, se é que se pode assim falar.
E, encontrando com ele depois, me falou esse amigo que aquele pequeno e singelo carinho que indiretamente lhe fiz havia sido reconfortante. Havia lhe dado forças, energia. Não sabe ele como fiquei feliz. Havia conseguido lhe retribuir o que mais de trinta anos atrás havia eu recebido dele.
Espero que ainda haja tempo para tomarmos um café com leite quentinho neste ou em um outro plano que ambos não conhecemos, mas sabemos que existe.
Estas palavras são para um amigo querido, que não preciso aqui citar o nome mas que ele sabe perfeitamente que é a inspiração que aqui habita.
Com muito carinho
13/03/2011 23:36 horas
Muito bonito esse texto. Fui lendo e me "vendo" em seu lugar mas com uma diferença: sinto que fiquei devendo uma xícara de café com leite.
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