Vovô iria fazer aniversário.Como sempre, vovó começava tempos antes os preparativos. Nesse ano em especial, resolvera pensar em algo diferente; afinal, depois de 50 aniversários que passaram juntos, tudo parecia ser lugar comum. Recebeu um panfleto, desses que aparecem no quintal, jogados e encantou-se. Era um lugar maravilhoso, com muito verde, piscinas aquecidas, cavalos, lagos com pedalinhos. A comida era a típica comida de fazenda e no anuncio havia uma referencia especial à sopa de bambu e suco de gengibre. Lembrou-se que vovô adorava comida natural e pensou que poderiam comemorar o aniversário num lugar assim, a família toda reunida e um fim de semana inteiro de festa.
Rapidamente passou a mão no telefone e começou a ligar para os filhos, combinando o tal encontro. Todos adoraram a ideia; os netos, então adolescentes, passaram a se falar todos os dias imaginando e planejando o final de semana festivo. Vovó fez as reservas para 15 pessoas, entre filhos e netos. A família era grande.
Finalmente o dia chegou. Três carros lotados de malas, apetrechos de caça, pesca, bola para jogar queimada, bola para jogar futebol, baralho, dominó, jogos e mil coisas para entretenimento.Na bagagem dos adolescentes várias roupas, cremes, xampoos, hidratantes, protetores solares, maquiagem. Alguns livros entraram nos pertences de todos, para fazer companhia naquele famoso momento de descanso. E lá se foram para comemorar o aniversário do vovô.
Durante a viagem (longa) a animação tomava conta do ambiente dos 3 carros. Entre a admiração da paisagem que era belíssima e a expectativa dos netos adolescentes, as mentes ficaram divagando o tempo todo. Depois de horas e horas começaram a ver placas indicando o local. Era uma montanha, por onde caminharam até chegar no topo, onde havia um portão que alguém citou como parecendo ser o portão do céu. Abriu-se e começaram a entrar para o lugar encantado, onde vovô completaria seus 75 anos durante os 3 dias de festa. Conforme caminhavam lentamente começaram a ver algumas pessoas também caminhando à pé que alegremente acenavam para eles. Mas havia algo muito estranho. Essas pessoas caminhavam sem uma roupa sequer a lhe cobrir os corpos. Vovó parecia em choque; vovô olhava para ela com um misto de espanto e satisfação. Mas não sabia o que lhe dizer. Os filhos se mostraram escandalizados. O que significava isso? Teria vovó enlouquecido? Os adolescentes passaram a sentir enorme admiração pelo casal de avós que tinham. Os pais pediam aos filhos que fechassem os olhos; claro, fingiam que obedeciam, mas por uma pequena frestinha, olhavam atentamente para aquele espetáculo inédito que se apresentava no momento.
Chegaram à recepção de onde saiu um homem exatamente como veio ao mundo, desprotegido de qualquer veste a lhe cobrir o corpo, já gasto pelo tempo e sem nenhum grande encanto. Da cozinha sai o cozinheiro que iria preparar a sopa de bambu; esse não vinha totalmente nu, tinha na cabeça aquele gorro de cozinheiro e trazia nas mãos uma bandeja com croquetes de bardana e suco de espinafre.
Ao perceber os olhares de espanto do grupo o homem da recepção explicou que ali era um espaço naturalista, onde a nudez era algo tão natural quanto a sopa de bambú. Vovó ainda retrucou dizendo não haver nenhuma referencia a esse detalhe que fazia toda a diferença. O homem lhe disse que logo na entrada do tal "portão do céu" havia uma placa informando sobre a condição de nudez do local. Ninguém observara nada, olharam apenas para o portão.
Desculpas dadas, negócio desfeito, entraram no carro e vieram embora. Não poderiam ficar num lugar 3 dias pelados. Todos sairiam de lá desmoralizados. Ao sair passaram novamente pelo tal portão e, olhando para trás viram a tal placa informando que a partir dali era proibido o uso de roupas. Ao fundo, puderam observar várias bundas, de várias idades, corpos nús, caminhando tranquilamente pelo local.
Voltaram para suas casas e no dia seguinte reuniram-se na casa para comemorar o aniversário do vovô. Na mesa um bolo com recheio de doce de leite e cobertura de chocolate, brigadeiros, cachorro quente e refrigerante. Uma vela em cima do bolo, algumas bexigas para enfeitar o ambiente. E só. Cantaram parabéns, vovô ganhou presentes, a casa ficou uma bagunça. Mas enfim todos se divertiram como sempre acontecia. Vovó prometeu que para o ano seguinte iria procurar um lugar para passarem o aniversário , mas tomaria alguns cuidados antes de fechar qualquer pacote. Mas, acho que no fundo, todos queriam que ela cometesse outro engano e procurasse quem servisse como prato da casa sopa de bambú. Afinal, todos ficaram muito curiosos para saber que gosto tinha....a sopa de bambu......e o suco de gengibre.
27/03/2011 09:32 horas
Perfeito Divissima!
ResponderExcluirMe diverti muito lendo... hahaha!
Fiquei imaginando qual seria a reação se a família retratada fosse a minha, parece que até os reconheci nos personagens! rs...
Você capta mto bem a essência das coisas... Adoro tudo o que escreve e agradeço por tantos comentários carinhosos em meu blog!
Um beijo grande dessa que tanto de admira!ia