Estávamos sentados durante o almoço quando ouvimos alguém bater no portão. Eu desci correndo para ver quem era. Lá estava um homem alto que me perguntou se eu era eu. Respondi que sim e o homem me disse com voz forte:
-Sou seu avô José.
Saí correndo assustada. Meus avós haviam se separado quando minha mãe ainda era muito criança e eu nunca tinha visto meu avô José. Das poucas vezes que falaram sobre ele o tom da conversa era sempre cheio de mágoas e rancor. Eu ouvia aquilo e imaginava meu avô um homem feio e grande, muito bravo, com quatro braços: dois para me segurar e dois para me bater.
Meu tio desceu para falar com ele. Ele havia vindo até nossa casa pois precisava resolver questões do divórcio. Meu tio tinha que assinar uns papéis. Então, viera ali para juntos irem ao cartório e terminar as questões judiciais que ainda restavam. Eu, como sempre quis ir junto; sempre que alguém saia eu queria acompanhar.
Fomos nos três, eu, meu tio Walter e meu avô. No caminho meu tio cochichou em meu ouvido que hoje seria o dia de ganhar a casinha de madeira. Toda vez que saíamos passávamos em frente à uma barraca que vendia alguns brinquedos de madeira. A casinha era meu preferido. Nunca ganhei pois era muito cara. E nesse dia ouvi que iria ganhá-la. Meu coração bateu tão forte e meus olhos se arregalaram.
Quando passamos pela pequena loja de brinquedos meu tio disse ao homem apontando para a casinha:
-Dê esse brinquedo à menina. Ela é sua neta.
O homem ficou pensativo olhando para a casinha, para meu tio e para mim. Pensou, repensou e colocou a mão do bolso retirando o dinheiro. Comprou a casinha e me entregou. Ficamos sem saber o que fazer, ele e eu, a nos olhar sem dizer nada. Até hoje não sei dizer se o olhar do homem que era meu avô me transmitia ternura, carinho, ou se estava furioso por ter que gastar seu dinheiro comigo. Afinal, eu era uma estranha para ele e ele um estranho para mim. Nos conhecíamos apenas de ouvir falar. Mas eu ganhei o que tanto queria e isso me bastava.
Voltamos para casa apenas eu e meu tio. O avô se despediu ali mesmo e nunca mais o vimos.
Muito tempo depois, quando eu já era adulta, senti vontade de procurá-lo, saber como estava, quem sabe sentia nossa falta. Sempre que falava sobre isso ouvia as pessoas dizerem que ele não poderia sentir falta do que nunca viveu. Mas ele tinha me visto uma vez e talvez tenha despertado algum sentimento em seu coração. Afinal, ele era meu avô.
Mas soube que ele anos depois tinha partido. E partiu sem nunca ter nos procurado para dizer adeus.
Fico pensando se ele nunca sentiu vontade de conviver conosco, de conhecer os outros netos que já haviam nascido logo depois que nos vimos pela primeira e única vez. Acho que não, senão teria nos procurado.
Se ele batesse novamente em meu portão eu não mais correria assustada. Já sabia que ele não era assim tão mau. Acho até que não passava de um pobre coitado. É, alguém que abriu mão de conhecer e amar os seus, de ser por eles amado, de viver os melhores anos de nosso crescimento. Perdeu a grande chance de ser chamado de vovô. De nos ver crescendo, de passear conosco, de nos ver apagando velinhas em nossos aniversários.
Acho que ele passou pela vida mas deve ter esquecido o seu verdadeiro sentido. Meu avô não foi bom nem ruim. Nem bravo, nem chato, nem bonzinho. Ele apenas passou por nós e não nos viveu.
Meu avô se chamava José Palma e eu o vi uma única vez.
Nunca senti sua presença...
Nunca senti sua ausencia...
07/04/2011 19:39 horas
Quando passamos pela pequena loja de brinquedos meu tio disse ao homem apontando para a casinha:
-Dê esse brinquedo à menina. Ela é sua neta.
O homem ficou pensativo olhando para a casinha, para meu tio e para mim. Pensou, repensou e colocou a mão do bolso retirando o dinheiro. Comprou a casinha e me entregou. Ficamos sem saber o que fazer, ele e eu, a nos olhar sem dizer nada. Até hoje não sei dizer se o olhar do homem que era meu avô me transmitia ternura, carinho, ou se estava furioso por ter que gastar seu dinheiro comigo. Afinal, eu era uma estranha para ele e ele um estranho para mim. Nos conhecíamos apenas de ouvir falar. Mas eu ganhei o que tanto queria e isso me bastava.
Voltamos para casa apenas eu e meu tio. O avô se despediu ali mesmo e nunca mais o vimos.
Muito tempo depois, quando eu já era adulta, senti vontade de procurá-lo, saber como estava, quem sabe sentia nossa falta. Sempre que falava sobre isso ouvia as pessoas dizerem que ele não poderia sentir falta do que nunca viveu. Mas ele tinha me visto uma vez e talvez tenha despertado algum sentimento em seu coração. Afinal, ele era meu avô.
Mas soube que ele anos depois tinha partido. E partiu sem nunca ter nos procurado para dizer adeus.
Fico pensando se ele nunca sentiu vontade de conviver conosco, de conhecer os outros netos que já haviam nascido logo depois que nos vimos pela primeira e única vez. Acho que não, senão teria nos procurado.
Se ele batesse novamente em meu portão eu não mais correria assustada. Já sabia que ele não era assim tão mau. Acho até que não passava de um pobre coitado. É, alguém que abriu mão de conhecer e amar os seus, de ser por eles amado, de viver os melhores anos de nosso crescimento. Perdeu a grande chance de ser chamado de vovô. De nos ver crescendo, de passear conosco, de nos ver apagando velinhas em nossos aniversários.
Acho que ele passou pela vida mas deve ter esquecido o seu verdadeiro sentido. Meu avô não foi bom nem ruim. Nem bravo, nem chato, nem bonzinho. Ele apenas passou por nós e não nos viveu.
Meu avô se chamava José Palma e eu o vi uma única vez.
Nunca senti sua presença...
Nunca senti sua ausencia...
07/04/2011 19:39 horas
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