Eu tive um avô especial. Muito especial. Era bom, honesto, cheio de exemplos que fizeram seus filhos serem também assim. Especiais.
Durante toda minha infancia esperava ansiosa a chegada das férias para ir até onde ele morava e ficar lá o tempo todo.
Meu avô tinha um armazém, desses que existiam antigamente e que vendiam de tudo um pouco. Naquele tempo não existiam supermercados, muito menos hipermercados. Então, o seu armazém era um sucesso.
Lembro-me das tinas onde ficavam os cereais, das prateleiras que armazenavam latarias, condimentos, corda, pregadores, materiais de papelaria. Vendia também sandálias. Havaianas.
Um dia ele me deu uma que até hoje considero como a mais bonita que tive. Vinha com duas tiras que poderiam ser trocadas quando a outra se partisse. Tinha a sola branca e a tira azul clara. O refil era de outra cor. Fiquei torcendo para que a tira quebrasse logo para trocá-la pelo refil.
Eu gostava de ficar ali no armazém para fingir que trabalhava. Ouvia atentamente o que meu avô dizia para seus clientes e na minha imaginação fazia o mesmo. Enquanto ele vendia para seus fregueses, eu vendia para os meus. Claro, os meus eram personagens fictícios existentes no meu mundo de sonhos de criança. Eu vendia, cobrava e até dava troco. Tudo na imaginação.
Acho que a partir daí, desenvolvi o dom que hoje tenho para o comércio. Vivendo e aprendendo com meu vô Péu. Era assim que todos o chamavam: Péu.
Uma manhã acordamos com a notícia de que havia tido um incendio na casa dele. Por sorte ele fora retirado sem nenhum arranhão das chamas que acabaram por destruir seu armazém.
Ficamos todos muito tristes. Naquele tempo não existia seguro, e sendo assim o fogo destruira todo o patrimonio que meu avô tinha construído ao longo dos anos e com tanto esforço.
Desde então vô Péu passou a se afastar cada vez mais da realidade. Acho que era tão dura para ele que resolveu criar uma outra realidade onde pudesse se sentir mais confortável. Reconstruiu sua casa como pode e nela morou até o dia de sua partida.
Continuou alegre como sempre foi, mas sua alegria me parecia diferente. Estava distante, recluso no mundo que havia criado para poder viver sem sentir a dor da derrota, da destruição. Todos os seus sonhos de anos haviam se acabado numa noite. Dizem até que alguém colocou fogo propositalmente para apagar alguma coisa. Eu não me recordo de detalhes da história.
A única coisa que sei é que nunca mais meu avô foi o mesmo.
Viveu por um bom tempo no seu mundo, entre realidade e sonho, entre razão e sensibilidade, divagando, indo e voltando de seus delírios.
E assim, um dia ele se foi. Estavamos junto dele na hora de sua partida. Eu, meu tio Antonio e minhas tias Thereza e Antonieta. Se minha memória não falha, acho que foi numa quarta feira de cinzas.
E assim, um dia ele se foi. Estavamos junto dele na hora de sua partida. Eu, meu tio Antonio e minhas tias Thereza e Antonieta. Se minha memória não falha, acho que foi numa quarta feira de cinzas.
Ironicamente, salvou-se do incendio e morrera nas cinzas.
Para meu querido avô Pompeu Ruggieri, que me ensinou a arte do comércio e muitos dos valores que hoje tenho e dos quais muito me orgulho.
09/04/2011 11:04

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