quinta-feira, 7 de abril de 2011

UMA MULHER À FRENTE DE SEU TEMPO

Minha bisavó era linda. Desde que a vi pela primeira vez ela já tinha os cabelos brancos enrolados em um montinho na nuca. Aos 50 anos parecia já ter 80 e aos 80 parecia ter 80. Não sei se na aparência ou no jeito de ser. Sempre teve jeito de bisa. Todos a chamavam carinhosamente de Baba.
Era uma mulher forte, decidida, batalhadora. Nada parecia amedrontá-la. Acordava todos os dias com muita disposição e passava o tempo todo fazendo alguma coisa.
Não tinha muita habilidade com palavras. Quando escrevia parecia desenhar. Mas sempre tinha uma palavra boa para dizer. Sabia confortar, aconselhar, mexer nos sentimentos com muita habilidade. Tinha um tom de voz imperativo, ao qual todos se rendiam.
Lembro-me de uma vez que ela me pediu ajuda para escrever uma carta para meu primo que morava no exterior. Ela tinha muito orgulho disso. Sentamos na mesa da sala e ficamos ali por um bom tempo. Ela escrevia e pedia que eu corrigisse. Me oferecia para escrever em seu lugar mas ela dizia que não. Deveria ser escrita por ela. Ele se chamava João Cláudio. Nós o chamávamos Cláudio, mas ela dizia que devíamos chamá-lo de João Cláudio, pois esse era seu nome. Escrevemos a carta e levamos ao Correio. Não sei se ele recebeu. Se recebeu não sei se entendeu. Ela dizia que ele entenderia pois era formado e pessoas formadas em Universidade conseguiam entender qualquer coisa. Acho que ela tinha razão. Por menos que ele conseguisse ler o que ali estava escrito saberia entender a mensagem que ela tentara lhe passar. Será que ele se lembra disso?
Baba dominava a cozinha como ninguém. Fazia uma massa que conhecíamos como melinca. Colocava a massa sobre uma mesa e esticava até parecer uma folha de papel de seda. Recheava, assava e servia a todos nós que nos deliciávamos com o prato. Passei toda minha infância observando isso e nunca consegui aprender. Acho que ninguém conseguiu. Só ela. Na Páscoa ela cozinhava ovos e os deixava coloridos. Colocava sobre a mesa que ficava enfeitada lindamente.
Tinha uma gaveta onde ela guardava um traje que dizia ser para colocar quando partisse. Cuidava dele com muito carinho. Todos os meses tirava, lavava, engomava. Era uma túnica preta com renda branca no decote.Parecia roupa de formatura. Ela dizia que devíamos estar bem vestidos para esperar o dia do Juízo Final. Foi uma das poucas pessoas que vi se prepararem para o óbvio de forma tão natural. Encarava a morte com a mesma naturalidade que encarava a vida. Coisas de pessoas sábias.
Ela sempre se adiantava à tudo. Estava sempre na frente. Tinha iniciativa. Acho que estava à frente de seu próprio tempo. Não dominava a arte da escrita e da leitura, mas dominava a arte da vida com tanta sabedoria que nos ensinou o que hoje sabemos acerca de valores.
Baba antecipou-se na hora da partida. Foi primeiro e deixou seu companheiro aqui. Deve ter ido na frente para deixar tudo preparado e esperá-lo. Foi assim que fez a vida toda. Ele a seguiu logo depois. Foi assim que fez a vida toda.
E nós, que aprendemos tanto com os dois ficamos aqui saudosos, sempre relembrando das coisas que vivemos e do quanto aprendemos com Baba e Dade. Era assim que nós costumávamos chamá-los. Carinhosamente... e respeitosamente.
E se outras vidas existirem eu tenho a certeza de que os dois estão em algum lugar olhando por nós, cuidando para que o acaso nos proteja sempre que estivermos distraídos.

Para meus bisavós Sra. Dominiquia Petrov Todorov, a Baba e Sr. Stefan Todorov, o Dade, grandes nomes da  nossa história de família.


07/04/2011                          10:19 horas

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