Durante minha infância e adolescencia passava férias no interior em casa de meu avô. Era uma cidade pequena chamada Itatinga. Pequena mas encantadora, e durante esse tempo foi sempre meu paraíso.Lá tinha primos e primas que fizeram parte dessa fase de minha vida e me marcaram. Até hoje quando me lembro desse tempo sinto o coração bater forte.
Assim que chegava pegava o telefone e ligava para meus primos. Naquele tempo existia uma Central Telefônica que recebia a solicitação e encaminhava a ligação para o número desejado. A telefonista se chamava Rosaria e até conhecia minha voz. Eu apenas pedia que ela ligasse para a casa de meu tio Renato e ela já sabia. O número era 123, se não me engano.
E aí, começava a parte boa. Encontros, passeios, conversas, afinal, tínhamos que colocar tudo em dia. Falávamos sobre o que tinha acontecido no período em que havíamos ficado distantes e sobre planos para as férias.
Como a cidade era muito pequena, podíamos sair sozinhas, sem receio nem preocupação dos pais.
Costumávamos ir até a chácara do meu tio Renato, onde nadávamos no pequeno riacho, comíamos fruta do pé, brincávamos de esconde esconde, vivíamos felizes e sem nenhum tipo de preocupação. Depois de um longo e estafante dia tomávamos banho e íamos passear na Praça, rodando em círculos, conversando, e no outro dia começava tudo de novo.
Uma vez cortei pisei em um prego no quintal da casa da Tia Zina e o danado ficou alojado entre meu dedos todo enferrujado. Tio Renato tinha uma farmácia e veio correndo me socorrer.
Encheu a banheira com água morna e colocou meu pé dentro depois de ter arrancado o prego. Eu estava morrendo de medo, era a primeira vez que me machucava assim. Tio Renato era alto, forte, tinha voz forte também, parecia ser tão bravo. Mas tinha as mãos suaves e delicadas, talvez por assim exigir sua profissão. E foi assim com muita delicadeza que ele cuidou do meu pé, enquanto conversava comigo e dizia que ficasse tranquila pois só doeria um pouquinho. Depois pegou uma injeção enorme, daquelas de vidro, e aplicou em meu braço. Foi a primeira vez que tomei uma injeção, pelo menos a primeira da qual tenho lembrança. Mas não me lembro da dor. Meu tio conseguiu me deixar tão tranquila que senti muito pouco. Lembro-me de que ele disse sobre outras dores piores que a do corpo. Acho que se referia às dores da alma.
E assim, entre os olhares assustados de meus primos parados à porta do banheiro e os olhares preocupados dos outros adultos, tio Renato deixou meu pé inteiro. E foi assim que eu aprendi a ser corajosa e enfrentar as dores do corpo.
Minha tia Linda, e as primas Carmem e Cecília moram em Itatinga. Carmem ainda mora na mesma casa onde passei os melhores momentos de minha infância. A farmácia já não existe mais.
Bil, meu primo hoje mora em Baurú. Tornou-se um veterinário bem sucedido. Era o mais velho de nosso grupo e o mais galã. Bonito que só ele.
Júnior tornou-se engenheiro, se não estou enganada. Depois de adultos, ficamos afastados e acabamos por desconhecer o outro.
Edson e Toni também constituíram família, mas não sei dizer onde andam. Mas seis que estão bem.
Tio Renato há muito tempo não está mais entre nós. Dedicou-se enquanto aqui estava à cuidar das dores do corpo.Agora, em algum lugar desse universo deve ainda estar cuidando de dores...dores de alma.
Esse foi meu tio Renato Fanton, que me ensinou ainda pequena a suportar corajosamente as dores do corpo.
18/04/2011 10:50
Encheu a banheira com água morna e colocou meu pé dentro depois de ter arrancado o prego. Eu estava morrendo de medo, era a primeira vez que me machucava assim. Tio Renato era alto, forte, tinha voz forte também, parecia ser tão bravo. Mas tinha as mãos suaves e delicadas, talvez por assim exigir sua profissão. E foi assim com muita delicadeza que ele cuidou do meu pé, enquanto conversava comigo e dizia que ficasse tranquila pois só doeria um pouquinho. Depois pegou uma injeção enorme, daquelas de vidro, e aplicou em meu braço. Foi a primeira vez que tomei uma injeção, pelo menos a primeira da qual tenho lembrança. Mas não me lembro da dor. Meu tio conseguiu me deixar tão tranquila que senti muito pouco. Lembro-me de que ele disse sobre outras dores piores que a do corpo. Acho que se referia às dores da alma.
E assim, entre os olhares assustados de meus primos parados à porta do banheiro e os olhares preocupados dos outros adultos, tio Renato deixou meu pé inteiro. E foi assim que eu aprendi a ser corajosa e enfrentar as dores do corpo.
Minha tia Linda, e as primas Carmem e Cecília moram em Itatinga. Carmem ainda mora na mesma casa onde passei os melhores momentos de minha infância. A farmácia já não existe mais.
Bil, meu primo hoje mora em Baurú. Tornou-se um veterinário bem sucedido. Era o mais velho de nosso grupo e o mais galã. Bonito que só ele.
Júnior tornou-se engenheiro, se não estou enganada. Depois de adultos, ficamos afastados e acabamos por desconhecer o outro.
Edson e Toni também constituíram família, mas não sei dizer onde andam. Mas seis que estão bem.
Tio Renato há muito tempo não está mais entre nós. Dedicou-se enquanto aqui estava à cuidar das dores do corpo.Agora, em algum lugar desse universo deve ainda estar cuidando de dores...dores de alma.
Esse foi meu tio Renato Fanton, que me ensinou ainda pequena a suportar corajosamente as dores do corpo.
18/04/2011 10:50
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