Conheci Sr.Antonio Faria em 1976. Fui com Bob à sua casa e me apresentou o homem que era seu pai. Foi bastante simpático e me recebeu muito bem. Estava sentado à mesa e convidou-me a me sentar também. Era bonito, pele morena, parecia galã de novela.
Iniciamos uma conversa e uma das primeiras perguntas que me fez foi para que time eu torcia. Nunca fui muito ligada a esportes, muito menos em futebol. Mas lhe disse que tinha certa simpatia por um time do qual meu pai era fervoroso torcedor. Sr. Faria debruçou-se sobre a mesa bastante aborrecido. Era o time rival ao seu. Não se conformava.
Mas, mesmo assim acabou me aceitando e passamos a ter um relacionamento até amistoso.
Convivíamos pouco e assim convivemos por dois ou três anos.
Certa vez ele começou a queixar-se de dores de dente e iniciou um tratamento que se prolongou por um tempo. Numa das idas ao dentista precisou arrancar um dente.
Cheguei à sua casa numa tarde e lá estava ele com o lado esquerdo do rosto inchado. Escreveu-me um bilhete dizendo que havia arrancado o tal dente e por isso não podia falar. Pediu-me que esperasse um pouco pois precisaria sair para dar um telefonema. Naquela época não tinha telefone em casa e quando precisava falar com alguém saia a procura de um "orelhão".
Li o bilhete várias vezes, e quanto mais eu lia menos eu entendia. Como ele não podia falar e saia para dar um telefonema?! Como assim?!
Passado algum tempo ele retornou e continuou mudo. Não lhe perguntei se havia conseguido falar ao telefone. Conversamos pelo olhar e através de alguns pequenos gestos ofereceu-me um café que tomei olhando atentamente para ele tentando decifrá-lo.
Como não chegamos a ter muita intimidade o silencio veio até a calhar naquele momento.
Tempos depois seu estado se agravou e a doença foi tomando conta de seu corpo e de sua alma. Não era apenas um problema dos seus dentes, era muito mais que isso. Aquele homem bonito de pele morena começou a se transformar em um homem pálido, de olhar triste e pensativo, com pouca expressão, quase sem vida. Foi definhando lentamente.
Uma noite recebemos a notícia de sua partida.
Corremos para lá no hospital onde estava seu corpo. Precisávamos prepará-lo para sua despedida, vestí-lo com sua melhor roupa. Os filhos não conseguiriam dar conta disso. Fomos eu e minha sogra e o preparamos com todo carinho que pudemos ter naquele momento.
Nunca tinha feito nenhum agrado a ele no pouco tempo de convivência que tivemos. Nenhuma gentileza. Não tivemos tempo para estabelecer uma relação mais profunda de amizade; o tempo nos privou desse prazer. Acho que teria gostado de conhecê-lo melhor.
Mas fiz por ele o que me coube na sua despedida. Espero ter deixado tudo à seu gosto. Espero que tenha chegado ao lugar onde foi feliz por ter recebido esse pequeno carinho.
Quem sabe um dia nos reencontremos, meu caro Sr.Antonio Faria. Por hoje só me resta lhe dizer:
-Até um dia, até talvez, até quem sabe...
10/04/2011 13:43
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