Meu tio morou conosco durante algum tempo. Eu era muito pequena ainda, mas lembro-me de muitas coisas desse tempo. Ele devia trabalhar em alguma escola, pois suas conversas com meu pai e minha mãe giravam em torno disso. Como era só eu de sobrinha, sempre tinha alguma coisa para me dar de presente.
Meu tio tinha muita habilidade com a comida. Fazia uma maionese que guardo na memória até hoje. Acho que todos nós, seus sobrinhos, chegaram a experimentar essa comida que ele preparava tão bem. Até hoje nunca consegui achar alguém que preparasse esse prato com tanta propriedade.
Um dia meu tio entrou pela porta com uma enorme boneca de louça. Tinha um vestido vermelho de veludo, mas não era um vestido qualquer, era um vestido de festa, longo, de saia franzida, com várias armações que davam a ela ares de rainha.
Quase entrei em choque, imaginando-a em meu colo. Mas ele chegou dizendo que iria dá-la de presente à alguém. Esse alguém não era eu. Olhando para minha expressão de espanto, disse-me que, caso mudasse de ideia, eu ganharia a boneca.
Corri para meu quarto e comecei a fazer promessas e orações pedindo que a boneca viesse parar em minhas mãos. Não sabia que motivos o levariam a mudar de ideia, mas nem me interessei em descobrir. Meu foco naquele momento era apenas a tal boneca. E eu é claro.
Passados alguns dias, ele me chamou carinhosamente e disse que a boneca era minha.
Não sei descrever minha emoção quando peguei a tal boneca que era quase maior que eu. Coloquei-a em uma cadeira, sentada elegantemente e ali passei a brincar com ela. Tinha um ciume enorme e não gostava que ninguém a pegasse. Afinal, tinha tido muito trabalho para conquistar o direito de tê-la.
Tempos depois minha irmã nasceu e tive que dividí-la com ela. Mas cada vez que a pirralha encostava na boneca eu ficava mordendo os lábios de tanta raiva. A boneca ficou comigo por muitos anos, sempre sentada naquela cadeira, enfeitando o ambiente. Ela foi a boneca mais linda que tive. Não falava, não se mexia, não fazia absolutamente nada. Apenas me encantava. Isso me bastava.
Até hoje não sei quem receberia a boneca em meu lugar. Mas devo admitir que ela não poderia ter vindo em melhores mãos que as minhas. Eu a amei muito e ela vive em minha memória até hoje.
Tenho que agradecer meu tio por esse mimo e sempre que me lembro dele vem à lembrança a linda boneca de louça de vestido de veludo vermelho que fez meu coração bater muito forte um dia.
Esse é meu tio Antonio Pompeu Ruggieri, o tio Toninho, que hoje mora em Avaré junto com Elda, sua esposa e já é vovô. Meu carinho para você e muito obrigada pelo seu carinho por mim. E pela boneca de louça com vestido de veludo vermelho.
15/04/2011 07:23

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