Era uma tarde de sábado.Estávamos na casa de meus tios,sentados à mesa da cozinha. Eu, meus tios e minhas primas. Tomávamos o café da tarde com bolo de fubá e queijo branco.
Meu primo havia se casado tempos atrás e sempre nos fins de semana vinha visitar o pai.
Naquela tarde ele e minha prima entraram com ares renovados. Tinham no rosto uma expressão de alegria e no olhar um certo mistério. Ele parou na porta da cozinha e disse:
-Aydé está gravida. Eu vou ser pai.
Meu tio ficou calado, cabeça baixa, olhos a olharem sorrateiros e constrangidos ao redor. Depois de um tempo em silencio, disse com voz forte:
-Vamos falar disso depois. Isso não é assunto para discutir na frente das meninas.
As meninas éramos eu e minhas duas primas, já com uns quinze anos ou perto disso.
Tivemos que deixar a cozinha e ir para a sala para que os adultos pudessem conversar à vontade.
Eu não me conformava, era sempre a mesma coisa: cochichos, olhares sorrateiros, tudo mudava quando o assunto era esse.
Nesse tempo eu já sabia que a cegonha era apenas uma lenda...
Que dentro daquela barriga enorme havia um bebê que só conseguiria sair dali de duas formas: por um buraco feito pelo médico ou pelo outro feito pela natureza...
Já sabia também como as crianças entravam ali, mas isso só assim por alto...Muito por alto.
Sabendo muito ou pouco acho que já era hora de podermos participar dessas conversas. Mas só eu achava isso.
Aos poucos fomos crescendo e pudemos então permanecer durante os encontros onde esse assunto viesse à tona. Esse e tantos outros.
Hoje quando vejo uma mãe contar para a criança de quatro anos que ela vai ganhar um irmãozinho e que ele está dentro da sua barriga sempre penso:
Como as coisas mudaram!
08/04/2011 19:24
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