Durante toda minha infancia esperava ansiosa pelos fins de semana. Aliás, até hoje espero. Mas nesse tempo gostava especialmente dos domingos. Todos os domingos costumávamos reunir a família em casa de um tio, da bisa ou em nossa casa. Na maior parte das vezes almoçávamos todos juntos. Depois do almoço, as mulheres levantavam e iam para a cozinha lavar a louça e já começar a preparar o café da tarde. Os homens ficavam sentados ao redor da mesa bebendo vinho de São Roque.
E nós, as crianças ficávamos brincando. As brincadeiras daquele tempo eram bastante criativas. Só tínhamos alguns poucos brinquedos e muita criatividade.
Assim que acordava já ficava imaginando tudo o que aconteceria naquele dia tão especial. Meu tio e minha tia iriam chegar com aquele caminhão enorme e de lá iam descer com meus primos e minha prima. Era uma festa. Eu adorava. Minha tia Júlia era minha madrinha. Costuma me levar sempre alguma coisa só para me mimar. Não eram presentes grandiosos, eram pequenas coisas que quando chegavam às minhas mãos tinham um significado gigantesco. Acho que pela doçura do seu gesto; pelo carinho que existia na entrega. A entrega era muito mais importante que o presente.
Falando na minha Tia Júlia, não consigo ter dela senão boas lembranças. Eu me encantava com sua presença. Em aniversários ela e minha mãe passavam dias até fazendo docinhos, bolos e guloseimas para enfeitar a mesa e o coração do aniversariante.
Quando operei a garganta ela me visitou e levou um pote de sorvete enorme. Meus olhos se esbugalharam diante daquilo. Aquele pote era só meu, foi o que ela me disse. Havia sido torturada com aquela anestesia de cheiro, acordara com ânsia e muito mal estar, estava ´péssima; mas passaria por tudo isso de novo só para ganhar um pote de sorvete só meu. Foi maravilhoso.
Outra vez Tia Júlia e minha mãe passaram quase uma noite toda fazendo docinhos para meu aniversário. Os tais estavam dentro de uma bacia enorme, sendo enrolados e embalados um a um. Ficaram lindos. Mas só eu sabia que aquela bacia era uma das que me serviam de banheira algumas vezes. Senti certo enjoo, mas os doces ficaram tão bonitos que nunca contei isso para ninguém, nem para elas.
Um dia ouvi minha avó e minha mãe chorando e falando da minha tia. Não entendi por que choravam. Eu também já ficara doente e ninguém havia chorado por isso. Não dei muita importância.
Com o passar do tempo as visitas de minha tia foram se acabando. Nós é que íamos à sua casa e ela estava sempre deitada. Falava pouco, seu rosto estava pálido, seu corpo diminuído. Continuava sorrindo mas sem forças. Minha avó ficou algum tempo com ela em sua casa para ajudá-la.
Numa manhã acordamos com a notícia de sua partida. Foi a primeira vez que lidei com a perda de um ente querido. E muito querido. Corremos para lá e ao encontrar minha avó queria saber como ficariam meus primos sem mãe. Eu não conseguia imaginar isso. Minha avó me disse que iríamos ajudá-los para que eles pudessem ficar bem.
Eu olhava para minha prima e podia sentir sua dor. Mas não conseguia imaginar essa dor em mim.
Corri para o banheiro e entre uma enxurrada de lágrimas comecei a rezar bastante. Havia aprendido que nos momentos de aflição devemos rezar para receber bênçãos e recuperar a paz. Mas a dor não passava. Não sabia muito bem o que pedir. Não podia pedir que meus pais não morressem pois sabia que a morte era inevitável. Tinha acabado de aprender isso.
Num desvario pedi à Deus, que era a única figura superior que conhecia, que já que temos que morrer, que eu então morrresse primeiro e antes de todos. Só assim não sofreria. Ato de egoísmo, de desespero. Era a primeira vez que enfrentava a morte. Nunca mais queria passar por isso.
Nos despedimos de minha tia e muitos anos depois passei novamente por tudo isso com a bisa, minha mãe, tios e tantas outras pessoas queridas. Sobrevivi.
Mas cada um que parte deixa um pouco de si e leva um pouco de nós.
Hoje lembrei de meus tios padrinhos tão queridos e senti saudade. Deles e daqueles tempos. Comecei a relembrar as histórias que passamos, algumas divertidas, outras tristes, mas todas muito intensas. Acho que eles merecem um espaço só deles aqui. Não sei se eles, lá de onde estão hoje, podem sentir o que escrevo. Acho que sim. Quero crer que sim. E se assim for devo imaginar que nos reencontraremos.Tomara seja numa bela e ensolarada tarde de domingo.
Essa é para minha madrinha Sra.Evdochia Soloviev Todorov,a Tia Júlia e para meu padrinho Sr.Ioan Todorov, o Tio João. Se eu tivesse que defini-los com apenas uma palavra acho que seria BONDADE.
05/04/2011 08:28 horas

Quando pensei que já havia me emocionado o suficiente, eis que me deparo com Tardes de Domingo.As minhas, por motivos semelhantes e outros tantos diversos, foram marcantes na adolescência e juventude. Lendo as suas não há como não me transportar no tempo e reviver as minhas. Pura emoção.
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