sábado, 2 de abril de 2011

BOLO DE CHOCOLATE

Conheci Rita na minha juventude. Nos conhecemos na faculdade e começamos a namorar com nossos futuros maridos nessa mesma época. Eram tempos de ditadura e foi  lutando por um mesmo ideal que nos encontramos pela primeira vez. Tivemos uma simpatia à primeira vista e a partir daí iniciamos uma amizade que durou por alguns anos. Nos encontrávamos todos os dias, conversávamos muito, riamos muito. Com o passar do tempo fomos ficando bastante íntimas e sempre ficávamos fazendo planos de futuro, de casamento, filhos...
Éramos dois casais afinados; nos encontrávamos para falar de bobagens, de movimentos sociais; fazíamos parte do Diretório Académico tão valorizado naquela época. Fazíamos parte da mesma turma, compartilhavamos dos mesmos ideais, tínhamos ideias semelhantes sobre coisas diversas. Mas Rita e eu, na intimidade, fomos ficando muito amigas, trocando mil confidências. Éramos alegres, felizes com o pouco que tínhamos. Casamos na mesma época e aí os planos de filhos passaram a ser nosso assunto predileto. Tivemos dois filhos, também na mesma época, ela um casal, eu dois meninos. Estávamos conseguindo realizar nossos sonhos.
Tenho uma foto dela em que estava com um vestido de gravidez que eu havia usado. Nós costumávamos trocar roupas, passar uma para outra, e nos nossos planos, sempre seria assim. Um  dia Rita comprou um a sandália de plástico e me encantei. No outro dia ela me presenteou com uma igual. Ficamos usando sandálias iguais por muito tempo.
Uma noite, estávamos em casa e fazia um pouco de frio. Ela me disse estar com vontade de tomar um café. Mas queria tomá-lo com um bolo de chocolate purinho. Essas foram as suas palavras. Como já era tarde nos contentamos apenas com o café; o bolo de chocolate ficou pra depois.
Passamos a falar sobre o futuro, quando os filhos estivessem já crescidos e começassem a dar as notícias dos que iriam chegar. Falávamos das reuniões que faríamos em nossas casas, com filhos crescidos e os filhos de nossos filhos correndo pela sala, dando assim continuidade à nossa grande amizade. Riamos muito de tudo isso, nos fazia bem falar sobre o futuro.
A partir daí o destino nos separou e ficamos distantes; mas sempre, de tempos em tempos, Rita reaparecia. Conversávamos, colocávamos em dia todos os assuntos , as novidades e jurávamos que nunca mais perderíamos contato. Mas perdíamos. E aí, novamente, tempos depois, nos encontrávamos e tudo se repetia.
Foi assim por alguns anos. Nos encontramos um dia, quando os filhos já eram adolescentes, eu já tinha um terceiro; essa foi a grande novidade. Ela continuava apenas com os dois. Falamos poucas coisas e ela me disse que estava fazendo alguns exames de saúde. Não pudemos nos aprofundar nesse assunto, pois estávamos com muita gente ao redor, falando tantas coisas. Ficamos de falar depois.
Novamente o destino nos separou; desta vez por um período longo. Às vezes pensava nela e tentava lhe encontrar. Mas imaginava que a qualquer momento ela ligaria. Era sempre assim. Entre idas e vindas ao longo desses anos aprendemos a ser amigas dessa forma. E penso que até mesmo as pessoas que estiveram muito próximas de nós duas não sabiam como era grande e forte nossa amizade.
Um dia o toque do telefone fez meu coração bater descompassado e entendi porque logo que atendi. Do outro lado alguém me dizia que recebera a noticia da partida prematura de minha amiga. Já fazia muito tempo que isso havia acontecido; logo depois do nosso último encontro.
Desliguei o telefone e chorei muito. Comecei a entender o sumiço dela. De onde estava seria muito difícil me visitar. Fiquei atonita por alguns dias. Todos aqueles anos passaram em vídeo tape em minha memória. Nossas conversas, nossos planos, nossa alegria. Tudo agora perdia o sentido. Rita não voltaria mais. Não mais colocaríamos a conversa em dia.
Não me despedi dela, não estive com ela nos momentos em que talvez ela mais precisasse de ajuda. Não pude dizer a ela sequer adeus.
Hoje resolvi escrever a ela; tento aqui fazer uma homenagem que devia ter feito enquanto aqui ela estava. Mas sei que nos encontraremos em breve. Sempre foi assim e assim continuará sendo. Deve ela ter já alcançado muita luz e se bem a conheço, deve estar agitando seu pedaço, enchendo de alegria o ambiente onde se encontra hoje. Rita foi a pessoa mais alegre e cheia de energia que conheci. Penso sempre nela e sei que será ela a pessoa a me acolher quando lá chegar. Se outras vidas existirem...

Para minha querida amiga Rita de Cassia Merighi Monti, que esteve a meu lado por um breve período, mas que com certeza está em algum lugar deste universo me esperando com um delicioso bolo de chocolate purinho.

02/04/2011                 21:35

Nenhum comentário:

Postar um comentário